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Um empresário cheio de talentos

É um modelo mais americano.
É, e quero cada vez mais caminhar no modelo americano, mesmo. O meu portal é bastante complexo, totalmente segmentado. Tem até a parte da TV digital, onde gravamos as entrevistas... porque tem toda a memória que a gente não quer perder. Eu e Raman temos uma paixão por essa geração de teatro. Foi com quem nós começamos, a gente considera nossos grandes formadores, nossos grandes mestres. Somos apegados a eles profissionalmente, emocionalmente, de maneira profunda. Não usamos nem o termo “contratados”...  Bibi, Natália, Mauro são uma família pra gente!

Isso é característico nosso.
É nossa latinidade, assim, até dizer chega! Eu sofro mesmo, me entrego, sofro quando alguém não está feliz, ou quando alguma coisa pode dar errado. Acho que também tem muito uma coisa assim da nossa personalidade em jogo. É uma política nossa de trabalho com a equipe, com os funcionários: tentar humanizar. Trabalhar em um país de terceiro mundo fazendo cultura, dependendo dela, trabalhando com quem está na ponta do mercado – isso é um privilegio! Isso valida as nossas dificuldades.

Você trabalha com cultura porque gosta de cultura?
Tudo na minha vida é cultura! Quando acordo, leio oito jornais. Porque tenho 185 artistas e preciso saber o que saiu sobre eles. Depois de ler os jornais, tenho que ver todos os sites. Enquanto estou lendo, ouço música instrumental, clássica. Depois venho para o escritório e passo o dia inteiro convivendo com cultura. Minha vida social não existe se não for ir ao cinema, a um show, ou a uma peça. Meus amigos, 90% são artistas. Respiro isso 24 horas.

 É possível voltar a produzir teatro sem essa dependência das leis de incentivo e de patrocínio? A bilheteria pode voltar a sustentar?
Acho que não. Hoje nós temos uma concorrência muito grande, que vai alem da televisão: a internet, o tempo que uma pessoa passa com o computador... Antigamente falávamos que a concorrência era a TV a cabo e a televisão. Agora tem a TV, a TV a cabo, a internet, a divisão da cidade e a violência. A coisa chegou a uma situação, dividiu tanto, pulverizou tanto, que se não tiver um subsídio real mesmo, vai ser difícil se manter.  No Teatro você vai fazer com quatro, seis, com oito atores. Sem patrocínio, impossível.

O cinema hoje é um diferencial para uma carreira?
O cinema tem um glamour muito grande, é uma arte muito respeitada. Mas se a gente analisar friamente, uma novela pode dar um boom muito maior. O que faz um divisor de águas não é o cinema, não é o teatro. É o bom trabalho. Se você faz uma novela e arrebenta, sua vida muda. O cinema pode dar projeção. Mas nem sempre fazer um bom cinema garante que vai dar certo na televisão. Mas fazer sucesso até não é tão difícil. Difícil é manter-se em evidência, ou com sucesso.

Com 185 nomes, quantos você mantém ativos full time?
Normalmente o percentual ativo é em torno de 80%. Bem alto.

Qual é o perfil de quem te procura?
Se vocês analisarem o casting, todo mundo tem um mesmo perfil. Não no estilo, mas na formação. Independentemente da idade, todo mundo está ligado ao teatro, todo mundo tem formação, todo mundo tem um histórico de batalha. É uma coisa que identifica e funciona na amizade mesmo. Entra o amigo do amigo, que é legal, que é bom ator, que está em um momento legal, que vai começar, às vezes, fazer um trabalho na televisão então me chama pra fechar. Não tem uma fórmula.

Você vai atrás de alguém que você quer no casting?
Não. É uma coisa que não faço mais, aprendi bem com a vida.
Tem gente que eu gostaria de ter, mas que não posso porque tem empresário e respeito muito isso (porque também quero ser respeitado). Também tem gente que quer vir mas tem medo, por que já tenho muita gente. E tem gente que senta aqui, se identifica e fica. E tem gente que é parceiro, que às vezes eu faço um trabalho, que não tem empresário. Por isso digo que não existe uma grande formula. É uma coisa que vai surgindo. Mas não chego mais e falo “quer entrar aqui?”. Não é salutar para a relação. É muito melhor a pessoa te querer.

 

 

Entrevista concedida a Áurea Bicalho Guimarães, Milton Quintino e Luisa Martins

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