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Um empresário cheio de talentos

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Você começou ali pelo governo Collor, com retenção da poupança e cortes no setor cultural...
Eu peguei um pouquinho depois, em 1991. Mas a conjuntura não era nada favorável porque não tinha patrocínio, não existiam as leis de incentivo. Mas foi uma mistura de muito trabalho com sorte. Porque o “Blue Jeans” não teve patrocínio nenhum. Meu pai emprestou algum dinheiro pra estrear, o Wolf colocou outra parte e o resto foi tudo na base da permuta. E a peça se sustentava e dava lucro com a bilheteria! Fazíamos sete sessões por semana. Então ainda consegui estrear no teatro brasileiro adulto, fazendo sete sessões por semana, como antigamente. Fazíamos duas sessões na quinta, na sexta e no sábado, mais o domingo. E ninguém mais estava fazendo! As grandes damas do teatro foram de uma geração que fazia nove por semana, né? Estrear fazendo sete foi uma coisa incrível na minha vida! A peça se manteve em cartaz por dez meses. Montar o que a gente montou, com aquela estrutura monstra, a horta, dois andares, cenário de ferro, decoração no teatro inteiro e manter 19 atores, com duas motos em cena... era incrível!

Os prêmios são tão importantes quanto o boca a boca?
No meu caso, o boca a boca é muito mais importante. É claro que o prêmio ajuda muito, no começo da carreira. Você fica estimulado a manter a sua carreira com garra, porque é muito difícil produzir no Brasil. A Montenegro e Raman tem várias vertentes e foca no mesmo nível a cultura e o agenciamento. Hoje eu me considero muito mais um empresário do que um produtor cultural.
Hoje a escolha da produção é voltada para uma estratégia de carreira dos atores. Nós descobrimos as oportunidades e dizemos: “você precisa dessa peça pra dar uma virada na carreira”. Tudo que penso como produção cultural está voltado para uma atriz X que precisa daquele trabalho. Nosso caminho é ser cada vez mais um escritório de ponta em elenco. Digo que temos hoje em dia “uma emissora de televisão” em talentos, com 185 contratados.

Qual é o seu diferencial nesse mercado?
O modelo de escritório faz a diferença. No mercado existe um escritório de agenciamento, ai tem um outro que só faz assessoria de imprensa, outro que faz só direito de imagem, outro só prestação de contas... Isso não existe aqui. A gente não terceiriza nenhuma etapa. Cada sala é um núcleo. Tenho assessoria de impressa, elenco, produção cultural, área de show, área de livro.

E por que você escolheu esse modelo?
Porque achei que esse é o modelo correto para agenciar o ator. O ator que vem trabalhar conosco encontra uma estrutura em vários níveis para desenvolver a carreira dele. A gente percebeu que ninguém atendia a essa demanda. O mercado precisava desse diferencial, que unifica. Tudo é uma mistura de oportunidade, sorte e visão. Não planejei isso tudo. Nós éramos uma produtora de teatro, com Nathália Timberg, Mauro Mendonça, Rosa Maria Murtinho, Bibi Ferreira. E os nossos atores não tinham empresários. A maioria não buscou nosso escritório para empresariar, eles entraram com um espetáculo. Daí nós sentimos a necessidade de empresariar todo o ator que trabalhava conosco. E ai esse modelo começou a se aprimorar.

Você começou trabalhando com um panteão de atores que veio da época das companhias, que agenciavam trabalho e davam uma direção às carreiras. Foi porque essa demanda do coletivo, de organizar evoluiu para um nível mais empresarial?
O mercado mudou não só neste nível. A televisão passou a ser um fator decisivo na carreira dos atores. Com exceção da Bibi Ferreira e do saudoso Paulo Autran, qualquer grande ator brasileiro faz televisão. A televisão ocupou um espaço: no passado não se ganhava dinheiro na televisão como se ganha hoje (por sua vez, o mercado só tinha uma emissora produzindo). Acabaram as companhias, as pessoas optaram pela televisão por sua sobrevivência, as peças ficaram muito caras para serem montadas, tornou-se necessário o patrocínio da iniciativa privada pra montar uma peça... Aí o empresário passou a ser uma figura fundamental. O que dá o nosso diferencial, como empresários, é a bagagem cultural. Porque tem empresário que não sabe nem por onde se começa a fazer uma peça. E eu acho que o manager é aquele que sabe desenvolver uma carreira e sabe desenvolver qualquer item por seu ator.

Alguns artistas do casting da Montenegro e Raman: Betty Faria, Bibi Ferreira, Carlinhos de Jesus, Cecil Thiré, Daisy Lucidy, Danilo Caymmi, Eva Wilma, Francisco Cuoco, Gracindo Jr., Leandra Leal, Paulo Goulart e Zezé Motta entre muitos outros talentos.

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