Relações profissionais no evento político
Escrita em 29/10/10 por admin
Artigos e ColunasPense em um evento que vincule várias vertentes culturais em conformidade com um único objetivo. A quantidade de prováveis seguidores está na casa dos milhares e não é impossível torná-los seus maiores divulgadores. Não se trata de um trabalho fácil, mas o nível de paixão envolvido é dos mais significativos da história da humanidade. E o que se tornam acontecimentos bem-sucedidos ao longo do tempo, senão um desejo eterno de quero mais?

Uma sucessão de participantes lembrará com saudade de ter feito parte do tal evento. Esse sentimento será mais do que meramente nostálgico; haverá orgulho e talvez uma atitude esnobe diante dos que não estiveram lá. As novas gerações chegarão ao mundo almejando algo como aquilo. Sua atitude será influenciada por um momento que sequer vivenciaram.

Para que tudo se realize dessa maneira, há um plano orientador. Tudo pode ser alterado com muita rapidez, pois quem se responsabiliza por observar as reações do público está atento às mudanças rotineiras de comportamento. A audiência transforma a realização, assim como a realização transforma a audiência. A isso chama-se a influência da política na Cultura e não se pode mais estudar ações coletivas sem lhe dar a devida importância.

A política na cultura

Eventos eleitoreiros são arquitetados tal como acabo de descrever. Se é condenável não pensar nas relações políticas para a promoção de algo na área cultural, no caso específico da campanha de um candidato isso é o próprio suicídio. Tal manifestação é parte da cultura popular. De dois em dois anos toma a mídia de maior alcance. Modifica a agenda cinematográfica, altera o comportamento em sociedade, influencia até mesmo a moda e, principalmente, a conversa informal.

Diante de tanta relevância, o calendário eleitoral pode ser encarado como uma programação cultural. Não existe somente uma assessoria envolvida na propaganda, mas pessoas especializadas na produção de eventos com grande proporção. Nada é pensado de forma banal, pois a questão eventual é uma só e bem clara: a vitória. Com base nesse princípio, pode-se avaliar mesmo um pleito menor, que envolve circunstâncias mais simples e, nem por isso, menos contundentes.

Um diretório estudantil, por exemplo, cerca-se dos mesmos artifícios para ter contato com os eleitores. A observação e a programação dos passos a serem dados modificam a opinião. Aqui, podemos citar a incorporação do significado “bom relacionamento entre partes que compõem algo” ao termo atitude política. O produtor, nesse caso, deve se preocupar com a relação entre realizadores e clientes.

Hoje, a maioria do público alvo de uma chapa estudantil não se interessa por política. Porém, em jovens a paixão que citamos no início pode se multiplicar com muita rapidez e intensidade. Se eles compram a ideia, espalham nas redes sociais, enviam torpedos, twittam, divulgam com total compromisso. O convencimento é tarefa tanto do promotor, quanto da produção.

A chapa deve cumprir todas as exigências, ser correta e ética. Quem produz, propaga os ideais e fortifica o laço entre candidato e eleitor; que deve ser tratado como em qualquer relação comercial na qual há a possibilidade de que o cliente ceda aos investimentos adversários. Não é comum que a situação se mantenha estável. Um evento eleitoral costuma desencadear a perda ou o ganho de votos. Há uma enorme pressão sobre quem os realiza.


Custos e custo

Outro fator que chama a atenção é o nível de obscuridade dessas relações profissionais. Quem elege está sempre disposto a averiguar a competência de quem se candidata. Os candidatos procuram sempre desarmar seus concorrentes. O que se instaura é um ambiente extremamente sigiloso. Para o produtor nem sempre é possível descobrir a relação entre candidato e investidor. Logo, é difícil avaliar custos.

Nesse tipo de evento, a autopromoção vem antes do lucro. Aqui não falo dos políticos – que também são sujeitos dessa afirmação – mas dos produtores. O prestígio associado a uma boa produção é o próprio marketing pessoal feito sem esforço. Também se ganham muitos contatos com todos os setores da sociedade. É muito importante medir palavras e atos num acontecimento em que o cliente é a própria opinião pública.

Ainda sobre as relações, deve-se considerar a ideologia a que os patrocinadores esperam estar associados. Os recursos não são medidos somente pela (difícil) dedução dos custos; o exagero e a pompa prejudicam muito o objetivo final. A qualidade de qualquer serviço é essencial, mas esbanjar promove certa crítica popular. Desse limite depende o sucesso do evento e a imagem vendida a quem patrocina.

Quem gere acontecimentos políticos acaba dirigindo a própria carreira concomitantemente. Deve avaliá-los como a qualquer outro trabalho, sabendo da relevância histórica de toda circunstância política. Promover algo sem compromisso é não se comprometer com a sociedade.

A fórmula para a concepção dos eventos aqui tratados foi desenvolvida com o passar dos anos, na democracia. Ela é aperfeiçoada de acordo com fracassos, que servem de aprendizado. Vem se repetindo sem muita originalidade. É importante que os estudiosos da produção de eventos atentem para as mudanças ocorridas nessa área.

A disponibilidade de informação mune o consumidor, que está atento ao processo. Exige-se competência e qualidade, pois é simples argumentar contra ou a favor. Um evento político deixa de ser mera articulação enganadora, para se tornar um movimento substancial, atento às necessidades populares. Nesse sentido, o profissional pode utilizar as tendências culturais do momento e deve criar novos formatos de produção. Trata-se da evolução de uma nação e da própria profissão do produtor.



Anna Luiza Machado
, é estudante do curso de Comunicação Social da PUC-
RIO

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