A festa sobre trilhos
Escrita em 29/10/10 por admin
Artigos e ColunasO salão de festas é o vagão do trem, o endereço é Central do Brasil, às 17 horas de sexta-feira. Lá começa a recepção calorosa. Não tem VIP, nem camarote. Todo mundo paga os mesmos três reais e oitenta centavos para entrar e curtir. Lá não tem bebida nem comida liberada a noite inteira, porque a consumação não está inclusa no ingresso. Só tem o maluco magrelo e suado gritando, andando com o isopor na mão cheio de opções, ganhando a vida pela sede dos outros. O cara da comida vende tudo no saquinho, empacotadinho, diz que é direitinho. “Vai um amendoinzinho, um salgadinho, uma paçoquinha, pipoquinha?”

A iluminação bem barata meio acesa, meio apagada reflete e revela as olheiras cansadas do trabalho e o sorriso aliviado de que o trabalho já acabou por hoje, ao menos. O batuque da zabumba, do pandeiro e do tamborim parece ir lá dentro do peito, como se batesse no ritmo do coração, embalado pelo sacudido dos desníveis dos trilhos ou pelas freadas bruscas de cada estação. Tem gente triste, gente alegre, gente exausta e animada, com raiva, com rancor, com amor.

É branco, é preto, é misturado. É velho, é novo, é misturado. É bonito, é feio, é misturado, é pobre, é rico, é misturado. Rico? Não estamos no trem? Quem irá ousar dizer que não tem rico no trem? Só quem nunca andou. É rico que entra ali por acaso, ou mesmo porque quer. É o rico da mansão de um quarteirão inteiro lá no Centro de Nilópolis, aquele que tem uma BMW 135i, mas pega o trem porque é o rico morador da Baixada Fluminense e não quer pegar o transito do centro da cidade, lugar onde fica o escritório de luxo em que ele trabalha com seu terno Brooksfield e sapatos Armani. Ele fica ali, misturado com o pobrinho de roupas falsificadas que mora numa cabeça de porco no Catete, mas que volta para a casa da família em Japerí nas sextas- feiras.
 
É um aglomerado de gente, gente normal, trabalhadora, gente boa. Todo mundo apertado, amontoado, consegue com a força do grito se organizar para que todos possam participar da festa. Afinal, todo mundo ali pagou três e oitenta. Os homens dos instrumentos, deuses da voz precisam ficar no centro, diante do olhar geral. A rainha pede para uns se ajeitarem, outros para pararem, muitos para cantarem e, assim, o povo veterano dos trilhos – que não tem escolha – unido, vai produzindo o melhor e o pior dos eventos que alguém pode ter (para suas particularidades) às sextas-feiras, de volta para casa.
É um fala-fala daqui, é um fala-fala de lá. É empregada aqui, o pedreiro ali e o advogado acolá. No meio do caminho, um garoto baixinho meio homem, meio mulher ninguém sabe o que é, se é o que chamam de andrógino – o jovem contemporâneo. Ele ali perdido de camisa Calvin Klein ouve Edith Piaff no seu IPhone de última geração, discreto. A garota de piercing de strass com um quê de Queila Larissa e blusa branca acima do umbigo, grava tudo o que acontece no seu celular da promoção que filma, tira foto e toca a música mais nova do Grupo Jeito Moleque. Ela vai tirar onda quando chegar a Madureira e mostrar para as amigas que “tava lá”.

É gente de todo tipo, tem todo tipo de gente porque é gente demais que nem dá para contar nos dedos. Talvez um dia a história de contar carneirinhos para dormir seja substituída por contar quantas pernas, braços e cabeças têm no trem. Em verdade, é provável que esse poder esteja fora da capacidade humana.   Só de olhar e ver aquele espaço pequeno tomado de tanta gente diferente dá pena do pobre do Isaac Newton. Ele teve sua teoria, aquela que dizia que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, jogada por terra. Pobre coitado, não viveu a tempo de conhecer a SuperVia para refazer seus cálculos incalculavelmente complexos e perceber que estava equivocado. Lá cabe sempre mais um, a ponto de um indivíduo perder a noção de sentidos do próprio corpo.

É um evento de muitos para muitos. O custo é pouco, o lucro cash é zero para os produtores e organizadores, que são os usuários veteranos que não têm escolha. Quem lucra ali é um povo desprendido e simples, que só quer ser feliz por um instante, pelo menos. Também lucra o cara da cervejinha, do salgadinho, do docinho. Também lucram os mestres das vozes e dos instrumentos que estão sendo reconhecidos por tantos incontáveis seres humanos. O público, uns que estão ali porque querem e outros não, oscilam entre sair satisfeitos com o alegre espetáculo da sexta-feira, ou sair aliviado na estação de destino com o fim do tormento do trem tomado pela “cabeçada” e pelo barulho.

Para alguns, aqueles 20, 30, 40 ou 50 minutos que levam da Central do Brasil até suas casas servem como refúgio para os problemas e a invisibilidade social, representam felicidade, amizade, convívio e parceria. Para outros, tudo se resume em uma barulheira insuportável. Não existe nada que defina quem é que gosta e quem não gosta. Tem rico que adora, pobre que passa longe, tem mulata que se mete no meio para dançar e puxa a loirinha junto, tem velhinho que tapa as orelhas e vovó que cai no samba.

É esse o cenário que se revela quando as cortininhas vermelhas da realidade cotidiana abrem e o povo inventa e reinventa o dia para poder se sentir igual em meio a tanta diferença. É este o retrato da festa, que sairá nos jornais – não nas colunas sociais, talvez – mostrando que, independentemente das circunstâncias, haverá sempre um jeitinho brasileiro capaz transformar o que parece imutável. Feito pelos produtores, organizadores, colaboradores, apoio e, principalmente, pelo público-personagem da vida, que promove um importante evento cultural todas as semanas. Evento este de alcunha Samba e Pagode no trem.



Maria Isabel Conte
, 19 anos, estudante de Comunicação Social da PUC-RIO, moradora de Nilópolis, frequentadora da SuperVia

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