PRODUTOR X PREDADOR
Escrita em 29/10/10 por admin
Artigos e Colunas
De um lado, discussões sobre Economia Criativa, sobre Cidade Criativa, sobre a Cultura como mola do desenvolvimento, tendo 2014 e 2016 como oportunidades concretas para o Rio de Janeiro e (por que não?) para a produção cultural. Paralelamente, a cidade vai se reafirmando como palco de grandes eventos e grandes manifestações populares. A esse panorama soma-se o trabalho de grupos como o AfroReggae e o Nós do Morro, cujas iniciativas transformadoras são sócio-culturalmente relevantes sob todos os aspectos. Tudo isso junto confirma a criatividade, alegria, espontaneidade e irreverência do carioca e reforça a vocação do Rio como capital internacional do país. Parece, então, que estamos no caminho certo.

Mas, há um outro lado que sugere o contrário. Sem contar o recorrente dano a equipamentos públicos e ao ambiente, não são poucos os eventos que atrapalham o ir e vir da população, infernizam o cotidiano dos moradores deixam um rastro de poluição. Tradicionalmente, o grupo que realiza e curte os eventos se ressente da caretice de quem reclama. Mas o fato é que: todos têm igual direito de opinar e que ninguém merece o caos instalado à sua porta (cujo ônus não fica para quem usufruiu dele). Ao se somar a esse ponto específico, a precariedade dos serviços e o comportamento padrão em pontos básicos - seja nos aeroportos, seja na fúria descontrolada dos motoristas de ônibus, seja no hábito incompreensível que o carioca tem de largar seu lixo na praia e de emporcalhar sua cidade - a imagem do Rio se machuca.

Quando a beleza da cidade maravilhosa e a hospitalidade de seu povo são abafadas pelos decibéis dos bailes funk e dos eventos em locais abertos, o que ecoa pelo ar é um paradoxo.
O luxo e o lixo. Os dois lados da mesma moeda. Esse é o Rio? E haja análises antropológicas, sociológicas, históricas, psicanalíticas e culturais, para entender…

Mas o que cabe ao setor cultural, vale uma reflexão. Em que medida a produção cultural contribui para o “lado lixo” da cidade? Será que cabe às produtoras minimizar os possíveis impactos ambientais dos seus eventos? Cabe a elas uma escuta efetiva da população do entorno?

Quando um evento se torna um inferno, a cidade perde, todos perdem. E o organismo social vai adoecendo e se degradando aos poucos. Não é aceitável que a produção cultural colabore para isso. Nós, produtores, não estamos fadados, voluntária ou involuntariamente, a reproduzir um comportamento predador, que parece ter se tornado padrão na cidade. Ao contrário, precisamos adotar uma mentalidade vital ao século XXI, mais orgânica, que incorpore um projeto, ou evento à dinâmica de um bairro, praia, ou cidade (e não ao contrário), minimizando o desconforto para as pessoas da região. Temos de avaliar nossos projetos de forma contextualizada, “de fora para dentro”, e lembrar que temos compromisso direto com a geração de valor.  

O Rio agradece!


Áurea Bicalho Guimarães
é produtora cultural. Graduada em Letras e pós-graduada em Marketing, foi Vice-Presidente do Instituto Cultural Cidade Viva. Participou de projetos como o Programa Empreendedor Cultural do Sebrae-SP, Eu Vivo Cinema Pan Americano e Circuito Copa Gourmet, além de atividades no Quadrilátero do Charme de Ipanema. No momento, é sócia da A. Guimarães Produções, realiza o projeto Futuro no Meu Jardim e participa da realização desta revista.

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