A revolução dos Nerds
Escrita em 18/10/10 por admin
TecnologiaÉ uma revolução! Ou melhor, são várias e simultâneas. E nós no meio delas.

O ritmo já era acelerado quando, lá pelos idos de 1983, surgiu o primeiro PC (personal computer) – façanha na qual Bill Gates participou como um dos protagonistas. Foi o que bastou: as tais revoluções se multiplicaram e ganharam velocidade e intensidade. Passados quase 30 anos do acontecimento, tudo o que podemos esperar é que os próximos trinta sejam ainda mais confusos. Anfetamina pura! A tecnologia está ai, inventando o impensável, em muitas frentes e, graças ao advento do PC, estão se realizando progressos enormes na genética, na medicina, na miniaturização e comunicações e em tudo o mais.  

Mas avanços tecnológicos não são necessariamente revoluções. A maior parte das novidades tecnológicas será incorporada às próximas criações,  rendendo algum dinheiro para seus criadores e passará desapercebida na história. Isso porque elas não contribuem, por si só, em nada, para ajudar os homens a saírem da condição de meros primatas. O que nos faz diferentes dos nossos irmão símios é nossa cultura e o fato de vivermos civilizadamente.

A verdade é que o Haiti continua lá, que o mundo é cheio de Haitis e que um deles fica na porta da nossa casa. Hoje, nos Haitis de sempre, usam-se AR-15, mira telescópica a laser e inter-comunicadores digitais. Tanto faz se são sequestros relâmpagos em caixas eletrônicas, fraudes online, ou grandes  esquemas financeiros do capital digitalizado, produzindo ganhos inimagináveis para os colarinhos brancos e a miséria em países distantes. Tanto faz se todos podem observar os milhões de vítimas das tragédias ambientais em tempo real. Olhar e não ver é só um sintoma. A barbárie, mesmo com tecnologia, continua sendo barbárie.

As mudanças importantes se configuram em atitudes. O espanto é que a as atitudes não estão vindo dos artistas e criadores, como vieram nas revoluções de antigamente. Os visionários  que eram a vanguarda, que apontavam caminhos, que espalhavam a inquietude estão “devagar”. Os artistas estão preferindo produzir entretenimento pensando ser esse o caminho mais rápido para o primeiro milhão de dólares, a fama e o desfrute. Reproduzem os mesmos valores do velho capitalismo e do status quo, tão questionado por eles no passado.

Os nerds fizeram o caminho inverso. Estranhamente, aqueles adolescentes esquisitos, que não desgrudam da tela do micro, que só pensam em tecnologia e em estudar - e que ganharam a fama pejorativa de nerds por seus hábitos solitários e pouco sociais - estão dando um banho de sociabilidade. Partindo do capitalismo selvagem do Vale do Silicio, lá pelos anos 70 do século passado, os nerds trilham caminhos que vão na direção oposta aos princípios da propriedade intelectual, sabidamente o grande ativo e fonte de lucros da economia do terceiro milênio. Na contramão das marcas, das patentes e dos direitos autorais, os nerds propõem o código aberto e o software livre.

Um programa de computador é uma obra intelectual protegida pelos direitos do autor. Os mecanismos de proteção são equivalentes aos do autor de uma obra literária, ou musical. No software, entretanto, o autor pode fechar o código: ou seja, ele vende o programa, que funciona, sem que o usuário possa alterá-lo, copiá-lo, ou vendê-lo a terceiros. Isso é chamado de sistema proprietário. Quem quiser usar o programa deverá comprá-lo do autor (de outra forma, cometerá o crime de pirataria).

Esta lógica, que é a do sistema, criou uma indústria milionária, fazendo a fortuna de gente como Bill Gates, primeiro com o DOS e depois com o Windows, que se transformaram em sistemas operacionais padrão para a onda de popularização dos PCs. Quem quisesse programar para o Windows, tinha que adquirir licença da Microsoft pagando royalties. Neste modelo, estilo capitalismo selvagem, todos os aplicativos são criptografados e proprietários. Ou paga, ou não leva.

O software livre pressupõe o código aberto. Ou seja, qualquer um pode ver e mexer no código daquele programa. Pode também alterar, vender ou distribuir cópias. Não há o monopólio sobre aquela propriedade intelectual.


São quatro princípios fundamentais, conhecidos como liberdades:

   * A liberdade para executar o programa, para qualquer propósito.
   * A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
   * A liberdade de redistribuir e, inclusive, de vender cópias.
   * A liberdade de modificar o programa e liberar estas modificações, de modo que toda a comunidade se beneficie. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.

Os dois movimentos, Software Livre e Código Aberto,  têm argumentos diferentes para suas atitudes. O pessoal do Código Aberto (Open Surce, em inglês) trabalha uma abordagem mais empresarial e técnica, partindo do pressuposto que a colaboração voluntária no desenvolvimento do código resultará em programas cada vez melhores para todos. Os programas proprietários estão sempre submetidos à lógica econômica e, por isso, andam a reboque dos interesses comerciais. Já o pessoal do Software Livre defende que o conhecimento é um bem de toda a humanidade e deve, por isso, ser compartilhado por ela. Sua argumentação vai mais pelo campo de moral e da ética, enquanto o Código Aberto tende a uma abordagem pragmática e técnica. Mas no fundo, estão sempre juntos e um é dependente do outro: não há Software Livre sem o seu código ser aberto e vice-versa.

Embora os efeitos sejam parecidos com a situação do domínio público, o software livre é um ato voluntário do autor. Os códigos são licenciados pelos autores de forma a assegurar que os programas feitos a partir de outros Softwares Livres mantenham esta característica. A licença mais comum é a GNU GPL, que assegura a citação do autor do código-base nos códigos subsequentes (chamado de CopyLeft, numa analogia ao Copyright).

Um grande impulso para o movimento foi dado quando, em 1991, foi criado o GNU/Linux, um sistema operacional de código aberto. O Linux (como é conhecido) foi criado pelo islandês Linux Tovard e, por ser licenciado como código aberto, todos os aplicativos que dele se utilizassem deveriam manter a característica. Ocorre que na época a internet estava surgindo. A Microsoft estava muito ocupada vendendo seus sistemas proprietários, comprando concorrentes e se preparando para ser uma das mais poderosas empresas do mundo. E não deu muita importância à rede.  O Linux, como era bom e gratuito, ganhou uma multidão de fãs e se tornou o padrão de servidores na Internet (mais de 80% das máquinas rodam utilizando o Linux como sistema operacional). Junto vieram milhares de desenvolvedores dispostos a criar aplicativos e utilitários, com o mesmo espírito. Tudo grátis.

O Software Livre não se posiciona contra a grande indústria do software – um dos ramos da indústria cultural – mas a empurra para que venda serviços e não produtos. A IBM e outras megacorporações já seguem esta trilha. As pessoas sobrevivem de seu trabalho e ganham seu dinheiro com ele. Um programador tem seus clientes, que pagam pelo  trabalho que ele faz a partir de códigos livres. Ele aprimora e melhora o código e, depois, compartilha a sua criação com todos. A participação de todos assegura a qualidade para aquilo que é coletivo e a evolução continua.

Outras atitudes inovadoras vêm a reboque, como os sites Wiki e as licenças CreativeCommons que, assim como o Software Livre e o Código , se constróem com a defesa de valores pouco praticados como a generosidade, a colaboração, o compartilhar, dar acesso a todos. E estes são os princípios da liberdade, da democracia e da igualdade colocados em prática. Revolucionário, realmente, é isso.

A revista Fazer e Vender Cultura é feita numa plataforma Web-App, 1.0, que é desenvolvida na linguagem PERL, do tipo CMS (Content Manager System, ou Gerenciador de Conteúdo). Em nosso servidor, o sistema operacional é GNU/Linux; o Webserver é Apache, as bases de dados MySQL, e todos os demais elementos indispensáveis para que tudo funcione são Software Livre. Se fossemos pagar por programas proprietários equivalentes teríamos de gastar muitos milhares de dólares.

Os usuários domésticos brasileiros não calculam o custo de software porque a pirataria de programas é a regra.

Mas, você sabia..?

§  o sistema operacional Windows 7 custa perto de R$ 700,00;
§  CorelDrawSuite X5, R$ 1.200,00;  
§  Acrobat Standard 8.0 Windows, R$ 1.440,00;
§  Photshop CS5 - R$ 2.200,00;
§  MS Office 2010, R$ 650,00.

Se você tem tudo isso em seu computador sem pagar, já se deu conta que é um pirata neste nível?



Veja no link uma lista de preços (do Buscape) desses programas cujos preços chegam a R$ 200 mil! http://compare.buscape.com.br/procura?id=30&kw=easyshare+softwares+escritorioarquitetura&Carac65=autocad&estado=0&cidade=0&ordem=dprec

Conheça trambém nossas dicas sobre programas gratuitos que fazem tudo tão bem quanto os software de griffe e ainda deixam você em dia com a ética, com as leis e com uma atitude mais saudável.



Mais atitudes para mudar o mundo:
Wiki e Crative commons


O Wiki é um tipo de software de colaboração que tem por princípio que, se você sabe alguma coisa, não deve guardar só para você. É preciso compartilhar. É uma atitude, coletivamente, nova. O know-how - o conhecimento - é um recurso valioso e, como todos os outros recuros, sujeito às leis da avareza e da ganância.  

O Creative commons é um licenciamento flexivél para uso de propriedade inteclectual, procurando garantir a proteção para artistas e autores ao mesmo tempo que permite o uso com mais liberdade pelo público. A expressão "todos os direitos reservados", tradicional do direito autoral, se transforma em "alguns direitos reservados".


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