Dançando no escuro
Escrita em 18/10/10 por admin
SomNo início, são as trevas. Não se enxerga um palmo diante do nariz. O som começa alto e se mantém assim. A partir daí, uma enxurrada de luzes vindas de todos os lados e o som grave do bumbo soando na boca do estômago fazem com que os bailarinos entrem numa espécie de transe frenético, que vai até o dia clarear.

Está criado o clima nas pistas de dança de boates e discotecas. Som alto, luz feérica e uma ou duas doses acima do normal… para ficar tudo “legal”.

Os bailes – ocasiões onde pessoas se reúnem para dançar - existem desde que o mundo é mundo e devem ter nascido junto com a música. Há eventos festivos que incluem bailes em sua programação. Mas é nas boates e discotecas que o baile se destaca como atração principal e, quase sempre, exclusiva.  




A gênese do inferninho


Bailar em boates e discotecas contrasta muito com brincar no carnaval, ou com as salas onde os pares ensaiados evoluem nas danças de salão, sempre iluminados, para que todos possam assistir ao espetáculo dessas performances. Nas boates, quem não dançar, dançou. É impossível conversar e nem se consegue distinguir nada na multidão saltitante. Exceto isto: apreciar os efeitos luminosos enlouquecidos.

Quando surgiram, as boates eram apenas lugares “escurinhos”, onde se dançava coladinho, falando ao pé do ouvido. A liberação sexual dos anos 1960 tornou esta etapa da conquista obsoleta. Mudou também a música e as pistas de dança se transformaram em ambientes lisérgicos, inspirados no visual produzido pelos efeitos do ácido dos hippies e roqueiros de antigamente. A dança passou a ser só uma diversão.

Existe uma verdadeira parafernália eletro-mecânica  e ótico-eletrônica capaz de gerar este clima psicodélico para a dança. Parte dela está diretamente integrada à arquitetura e à decoração, como as luzes que saem do chão.  

Uma boate ou discoteca pode ser dividida em três espaços: pista de dança, uma área de mesas e circulação e as áreas de bar e serviços. A regra geral é: quanto mais escuro, melhor.

Para o bar, uma iluminação branca e estável é indispensável, mesmo que discreta. Os garçons muitas vezes se valem de uma lanterninha providencial para fazer seu trabalho e não atrapalhar ninguém. A “não luz” é indispensável para produzir o contraste com as cores, intensidade e potência das luzes e dos efeitos projetados. Assim como o silêncio faz parte da música, o escuro faz parte da iluminação.

Pode-se usar no ambiente a luz negra, que produz alguma visibilidade nos corredores e nas mesas e permite explorar os efeitos decorativos das cores fosforescentes, que brilham no escuro. Desenhos luminosos nas paredes têm hoje um ar brega, mas já estiveram na moda, assim como roupas com cores que acendiam no escuro.



Efeitos do apocalipse


Para funcionar, uma pista de dança tem que ter, além do som muito alto e ritmado, muita luz – que mude o tempo todo. As luzes são piscadas ou projetadas.

Os princípios básicos da luz piscada para boates não mudaram muito ao longo do tempo e são basicamente três: as luzes rítmicas, as sequenciais e as estroboscópicas. As rítmicas piscam de acordo com a música; as sequenciais piscam numa ordem pré-definida, dando a impressão de  movimento; e as strobo piscam tão rápido que produzem a sensação visual de uma filmagem em câmara lenta.

As lâmpadas – fontes de luz – vêm melhorando muito: demandam cada vez menos energia e geram menos calor, o que permite ter muito mais fontes luminosas simultâneas. Os leds estão dão um banho porque podem mudar de cor. Antes dos leds, cada lâmpada tinha uma cor. Agora, todas podem ter qualquer cor.

O avanço na tecnologia das lâmpadas permitiu que a luz projetada em anteparos (que podem ser paredes, palcos, telas ou nas pessoas) conhecesse muitas inovações: os moving-heads e o raio laser possibilitam a projeção de formas geométricas e o movimento de fachos de cores programados em computador. A projeção de imagens ganhou muito em nitidez e luminância. E os efeitos mecânicos, como máquina de fumaça e bolhas de sabão, complementam o ambiente, criando anteparos móveis para as projeções luminosas.

São tantos os recursos, as cores e os desenhos que tudo fica muito over! E, embora seja voz corrente como é tênue a fronteira entre o bom gosto e o mau gosto, para pista de dança de boate isso não existe. Tudo deve ser excessivo mesmo. É isso que aumenta a animação do público e faz com que ele se exceda em alegria.

Comentários:
 
 Sugestão
Escrita em 18/002/11 por Paulo
Acho que este tipo de assunto técnico deveria ter mais destaque na revista.

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