Uma produtora do outro mundo, no Brasil

A filmagem e a pós-produção foram feitos todos no Rio de Janeiro?

Quase tudo foi filmado no Rio, exceto dois dias em Brasília.
A parte de efeitos especiais a gente fez no Canadá. A trilha sonora foi feita pelo Phillp Glass, que mora em Nova York, e foi executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, aqui no Rio, nos estúdios da rádio MEC. Foi a primeira vez que a OSB gravou a trilha de um filme brasileiro. As pessoas se engajaram no projeto, com muita disposição, com vontade de fazer.

Você fez os efeitos especiais no exterior pela tecnologia?

Não, não foi pela tecnologia. Foi pelo tamanho do trabalho, quase 400 planos com efeitos especiais; muita coisa para fazer num tempo determinado (a data de lançamento estava marcada). A empresa ficou praticamente fazendo só o Nosso lar. Então, a questão era encontrar uma empresa em condições de mobilizar esta quantidade de gente, com experiência. Aliás, esse é o problema do Brasil; porque o equipamento é fácil comprar.  Difícil é ter essa quantidade de gente ali, para fazer a coisa.

Mas isso não encarece a produção?

Efeitos especiais sempre custam caro, em qualquer lugar do mundo. E no Canadá até é um pouco mais em conta. Pelos incentivos fiscais, o governo de lá estimula que as empresas a levarem produções de fora (cerca de um terço do valor gasto vira crédito tributário para a empresa que atraiu a produção estrangeira). Fazer os efeitos com a Intelligent Pictures ajudou a viabilizar o filme. Contou também o fato deles terem feitos filmes de que nós gostamos, como A fonte da vida, que tem cidades imaginárias.  

O filme tem um time de craques, como o Phillip Glass, na música e a diretora de arte.   Como foi o seu relacionamento com estrelas desse nível?

Foi tudo muito tranqüilo, sem nenhum problema. Tudo muito profissional dos dois lados. Ninguém chegou ao Brasil com aquela empáfia de “venho ao terceiro mundo”.  A equipe gringa que esteve no set, por exemplo, foi muito respeitosa e ficaram muito bem impressionados com a equipe brasileira.

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Dar aula é um barato especial. Vale a pena.

 

E o Phillip Glass?

Ele é diferente de tudo... acho que mora em outro planeta. Não é o fato de ser de fora, é dele ser o que é. Ele tem um processo de criação de trilha completamente diferente do que a gente está acostumada. Phillip faz as grandes peças temáticas, mas não em cima do filme. Ele vê o filme, se inspira nele e cria os grandes temas. Ai, depois tem que encaixar esses temas no filme. Então, veio o Guto Graça Mello, que foi fundamental nesse processo trabalhoso e diferente de fato.

As pessoas respeitam uma produtora brasileira lá fora? Teve algum preconceito?

Não. A única diferença foi o valor que cobraram. Pelo fato de ser um filme brasileiro, tem um preço diferente do de Hollywood. A gente colocou a realidade e eles entenderam. A gente fala que este é um filme muito caro para os padrões brasileiros, mas os meus amigos gringos que já viram o filme acham que ele custou três, quatro, cinco vezes mais. A única hora em que eles nos trataram diferente foi no preço: para eles, era um filme independente de baixo orçamento; enquanto, para nós, era um filme de alto orçamento.

Como você conseguiu juntar investidores privados para fazer um filme com este orçamento utilizando poucos recursos públicos – tanto de leis quanto de subvenções?

O único incentivo fiscal que tivemos foi pelo Artigo 3, da Fox, que é distribuidora e co-produtora do filme. O resto veio de investidores privados.

Mas porque vocês não buscaram os incentivos fiscais?

Olha, não tem nenhuma lógica. Não foi por falta de buscar, nem com base no artigo 1º, nem ICMS, nem Lei Rouanet. Este filme, especificamente, por se basear em um livro que tem uma história, que já existe há 70 anos, um livro que foi lido por, talvez, 20 milhões de pessoas, acabou atraindo gente que quis investir nele. Alguns porque acreditam realmente no potencial deste mercado. Outros, misturando esta crença no potencial de mercado com uma ligação direta à temática. Eles acharam importante trazer este tema, fazer uma coisa legal. Mas também não queriam perder dinheiro, né? Este é um projeto bastante atípico, neste sentido

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