Uma produtora do outro mundo, no Brasil

Como você aprendeu a fazer produção?

Foi sem querer. Eu estudava informática na PUC e sabia que não tinha nada a haver comigo. Comecei a fazer outras buscas e um dia, por acidente, entrei no curso errado, na Fundição Progresso. Ali conheci o Luis Carlos Lacerda, o Bigode, que me apresentou rapidamente a outras pessoas, como a Tetê Moraes.
Era uma época em que não se fazia cinema. Mas logo eu estava fazendo publicidade e trabalhando no RioCine (que acabou virando o Festival do Rio). Então, acabei aprendendo a fazer produção sozinha, como todos nós. A gente foi aprendendo e fazendo. Muito diferente do mercado de hoje, super bacana, que tem um monte de cursos. É tão bom ver isso, porque é uma coisa de que eu sentia tanta falta, quando era mais jovem..!

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Era uma aprendizado muito caro, né? Errava e tinha que refazer as coisas.

Cada erro custa muito caro, mesmo. E você vai vendo que poderia ter feito uma coisa melhor. E vai aprendendo também qual o seu papel como produtor. Até hoje meu pai me pergunta o que é que eu faço, porque ele não entende... Quando ele vê os créditos do filme é que percebe que aquilo se materializa em alguma coisa.

Meu pai também não entendia o que eu fazia... Ele dizia que eu era um especialista em ciências ocultas e letras apagadas (risos).

Sabe o que eu me lembro: quando eu fazia publicidade e o papai era construtor. Quando caia um pé d’água, ficávamos nós dois na varanda: ele pensando se teria obra no dia seguinte; eu, se haveria filmagem... Então, a gente percebeu que tinha muita coisa parecida entre o trabalho do empreiteiro e o do produtor: planejar um empreendimento imobiliário é parecido com planejar um filme.

Com certeza!
Mas aos poucos você vai entendo que o papel do produtor não é só armar as coisas. É muito mais amplo, é participar do processo criativo, conduzir o desenho da produção, do empacotamento do projeto, do marketing.  Aí vai enriquecendo a noção da profissão. Mas isso se aprende com o erro. Toda a minha geração foi assim...

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O pequeno Benjamin, não desgruda da mãe, e Marcos Didonet.

 

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Você criou um curso de gestão de cinema na FGV. Ele continua?

Não eu não criei não. Quem teve a idéia do curso foi a Adriana Dias e ela me convidou para fazer a coordenação acadêmica, junto com o Marcos Flaksman – que hoje é assessor internacional da ANCINE. Depois da minha segunda gravidez é que eu tive que parar porque não dava para conciliar o trabalho, os cursos e as crianças. Mas o curso continua existindo e é super legal.

Como foi gerir uma produção do tamanho do Nosso Lar? Seus outros projetos eram bem menores...

Nosso lar nunca teve a proposta de ser o maior. Ele só precisava de coisas específicas que fizeram com que ele ficasse desse tamanho: os efeitos especiais, a preparação... Tivemos que criar uma cidade no papel, com arquiteto e tudo, para transformar esta cidade no computador. A filmagem era muito mais complexa.
As coisas foram mais complexas, mas em termos de gestão, não tão diferentes de qualquer outro filme. O grande desafio foi viabilizar e aprender coisas que a gente nunca tinha feito.
Um filme com uma temática bastante polêmcia, por si só, com um monte de desafios técnicos e discussões no set, diárias, constantes (filosóficas, religiosas, psicológicas). Foi uma filmagem super intensa. E tudo foi tenso na filmagem.
Até hoje... Como é uma cidade espiritual? Chove? Não chove? Ok, eu morri. E, teoricamente, poderia entrar em qualquer lugar. Logo a minha casa não precisa ter porta, concorda? A gente foi se deparando com detalhes que nunca tinha parado para pensar. Maçaneta, por exemplo, é uma coisa que não existe. Você vai num nível de detalhe que é muito legal!
Por outro lado, é enlouquecedor, porque ninguém sabe ao certo. Pesquisamos um monte de depoimentos de pessoas que dizem já ter visitado estes lugares, pessoas com experiências em eventos de “quase morte”, pessoas que têm algum tipo de mediunidade, que conseguem ver coisas que eu, por exemplo, não vejo. Mas também nos baseamos muito no próprio livro (porque ele é muito detalhista) com relação à arquitetura da cidade.