Colóquios Fazer e Vender Cultura
CULTURA: UM POUCO DE INDÚSTRIA NÃO FARIA MAL

Se houve uma unanimidade no debate do II Colóquio promovido pela Fazer & Vender Cultura, em julho de 2010, no Oi Futuro do Flamengo, foi a de que falta ao setor cultural a força de organização corporativa que sobra na indústria para a influência sobre as decisões relacionadas à macropolítica nacional.

A animação da noite foi estimulada pela provocação expressa no tema do Colóquio: “Uma bagunça cultural: As formas de representação e representatividade no setor cultural”. Durante duas horas, cerca de 30 representantes de instituições conversaram sobre a articulação entre empresas e associações voltadas para a cultura e o entretenimento e sobre o déficit de representatividade do setor diante das esferas da administração pública.

A seguir, alguns destaques do bate bola.

Representatividade

Miguel abriu a sessão mencionando o paralelo com representações poderosas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) para diagnosticar a inexistência de organismo associativo que represente o setor cultural e que tenha poder de diálogo com o Governo Federal:

“Quando precisamos, vai um artista abnegado a Brasília e usa o seu carisma para pedir algo em nome próprio”.
Barata considerou que, embora lentos, há avanços, exemplificando como a democratização do debate com produtores culturais para modificação das leis Rouanet e da meia-entrada (que, na proposta apresentada, limita a venda destes ingressos a 40% da lotação do evento). Miguel ponderou que esse avanço é do Ministério da Cultura, por meio das Conferências Nacionais de Cultura, mas não da iniciativa organizada dos produtores culturais.

“A inclusão recente da cultura no SuperSimples, um avanço bacana, mostra como o poder entende pouco do assunto. Era totalmente descabido a cultura estar fora. Valia para o botequim da esquina, para quem fabrica prego, mas não para nós. Temos que pressionar coletivamente”.

Barata lembrou que outros setores contratam lobistas, ou enviam representantes com frequência ao Congresso Nacional para conversar com deputados e senadores: “uma pressão que funciona: em meio minuto você consegue mudar votos”. Mas isso depende de uma viabilização financeira da organização.

Existe uma contribuição sindical recolhida por todas as empresas do setor cultural, lembrou Miguel, mas “alguém sabe para onde vai este dinheiro?”.

Colóquio
Articulação

Didonet contou que deputados se mostram perplexos, em Brasília, com a ausência de demandas vindas do setor cultural.
Feijó sugeriu a elaboração de um documento com reivindicações do setor cultural e o apoio, nas eleições deste ano, a cinco candidatos que se comprometessem com as causas.

Para Miguel, é preciso encontrar bandeiras comuns a todas as áreas relativas à cultura.

Para Didonet, “hoje só existe uma pauta comum ao teatro, ao circo, ao cinema e a todas as áreas da cultura: a grana. Por incrível que pareça, é simples consegui-la. O orçamento da União é definido por pressões. O da cultura é menor porque não estamos lá na hora da definição. Ficamos perdidos nos nossos projetos”. E sugeriu que fossem feitas demandas aos presidenciáveis por meio da imprensa.

Barata incluiu a definição de políticas públicas claras para o setor entre as possíveis demandas e, especificamente, aquelas que atendam ao Rio de Janeiro, já que há uma disputa entre produtores de diferentes regiões por fatias maiores do orçamento. Cristina reforçou essa posição defendendo políticas permanentes e sustentáveis, que não dependam de administrações específicas, assim como o tratamento regional das questões.

Victor cris
Victor D'Almeida Shirley Fioretti e Cris Becker
Comentário editorial

Existem hoje centenas, talvez milhares de organizações voltadas para a articulação do setor cultural. O problema é que cada uma delas representa apenas seu segmento e todas não conversam entre si.

Pode ser que a vaidade de alguns dirigentes atrapalhe, mas o maior problema é a descrença no associativismo institucionalizado como caminho– talvez o mais eficiente e democrático – para melhorar a realidade.

Nem sempre foi assim. Houve momentos da história do país em que órgãos de classe da cultura tiveram grande engajamento e aglutinaram as reivindicações de categorias na perspectiva da cidadania: SATED, ACET e SBAT, por exemplo.

Estas organizações brotaram a partir de campanhas vitoriosas pelacriação de leis específicas para seus setores, como as regulamentações profissionais e autorais. Logrados os avanços, elas passaram a cuidar de suas atribuições legais e pararam, parece, de buscar propostas e bandeiras mais amplas.

Leia também o artigo Novidades na articulação: os coletivos e um movimento