Na era da alteridade, razões para investir nas artes
Escrita em 30/008/10 por admin
Artigos e ColunasCultura é uma linguagem social e seríamos estúpidos sem ela.



Faz 70 anos que o governo britânico leva as artes a sério. Em dezembro de 1939, em um mundo escurecido pela guerra, inverno e escuridão, um pequeno grupo de funcionários e educadores se reuniu para discutir a crise nas artes. Grandes museus e galerias estavam vazios, os seus conteúdos embalados em proteção aos bombardeios.

Teatros foram fechados, orquestras dissolvidas. O comitê concordou que era essencial "mostrar ao público que o Governo se preocupa com a vida cultural do país. Este é um país que luta pela civilização".
Em 1940, com um orçamento inicial de 50.000 libras (cerca de 2 milhões de libras em valores de hoje), nasceu o Conselho para a Promoção de Música e das Artes, mãe do hoje Arts Council England (Ace). O jornal Daily Express trovejou: "Que loucura é essa? Não existe cultura em tempos de guerra."

Ninguém está fingindo que estamos de volta a 1940. Nossos museus estão cheios de visitantes de todo o mundo. O West End dos musicais teve o seu melhor ano como sempre. Londres tem muitas orquestras. Em 1940 havia museus e salas de concerto fora de Londres, mas agora a Grã-Bretanha dispõe de uma infra-estrutura cultural sem comparações, graças à Loteria Nacional (National Lottery) cujas receitas aumentaram desde a recessão.

No entanto, as artes sentem-se sitiadas. O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS) tem que cortar 88 milhões de gastos neste ano. Cortes mais profundos são esperados após a revisão global das despesas, no outono. Não admira que o ACE esteja desesperado para definir sua situação.  Depois de décadas de iniciativas públicas e privadas, relatórios, conferências e consultas, ainda estamos à procura de um argumento "racional" para o financiamento das artes.


Tempestade perfeita


Uma razão racional para não dizimar o financiamento cultural é que caminhamos para uma tempestade perfeita. A força da economia cultural britânica é a mistura bem equilibrada de dinheiro público e privado. Entre 2008/09 a média de ganhos e lucros de uma organização regularmente financiada pelo ACE foi de 47% de bilheteria, 31% do Arts Council, 12% de fontes de financiamento das autarquias locais e outras entidades públicas, e 9% de “trusts”, fundações, doadores e patrocínio empresarial. Museus e galerias nacionais, em média, se organizam com um terço de dinheiro do governo; um terço de bilheteria e outros rendimentos, e um terço através de captação de recursos e patrocínio.

Esta economia equilibrada dá segurança às organizações para se planejarem, e elas têm que ser sensíveis com o seu público. Agora as coisas estão começando a balançar. A recessão reduz a renda disponível, fundações tremem, encolhem os patrocínios empresariais, as autoridades locais têm que voltar a cortar, e o Tesouro exige poupança por parte do DCMS. Racionalmente, o recurso à bolsa mais larga – a do governo - não deveria faltar quando os outros começam a falhar.

Mas este é um argumento de curto prazo. É preciso haver um “case” que seja válido em momentos bons ou ruins. Desde 1980 nos acostumamos a ouvir sobre a importância econômica das artes: que criam emprego, estimulam gastos, atraem turistas. Consultores defendem e comprovam o “efeito multiplicador” de um equipamento cultural: o dinheiro gasto com ele espalha amplamente sua inteligência, doçura e luz na economia local. Na década de 1990, as "indústrias criativas" foram inventadas, uma penumbra benigna das atividades empresariais, tais como publicidade do uso da cultura com fins comerciais. O DCMS afirma que o campo das suas responsabilidades (incluindo esportes) é responsável por 10% do Produto Interno Bruto.

Foi para compensar a natureza cada vez mais tênue da economia que, na década de 1990, uma segunda linha de defesa foi desenvolvida. Essencialmente instrumentais, desta vez os argumentos escolhidos para financiar as artes passam pelo social. O novo governo trabalhista gostou deste argumento, e determinou que o Conselho usasse as artes "para combater a exclusão social e a evolução das comunidades". A ACE se viu na incumbência de cumprir metas para a saúde, educação, emprego e redução da criminalidade, e não mais a verdade, beleza ou o sentido do sublime.

Ninguém nega que a participação das artes traz benefícios. É difícil demonstrar a cadeia de valor entre a arte e a valorização social, e difícil medir o aprimoramento social em si. Ministros da cultura ficaram envergonhados por isso e, em 2008, um relatório encomendado a Brian McMaster, “Excelência em Apoio às Artes: da Mensuração ao Julgamento”, se destinava a sinalizar o afastamento de “targets”. Infelizmente a "excelência" é um conceito sem conteúdo. Pode ser avaliado em termos relativos, mas nada acrescenta à concepção do Tesouro sobre avaliação. Para convencer a opinião pública, e não apenas o governo, argumentos têm de ser construídos mostrando que as artes são dignas de financiamento por e para elas. Isso exige uma forma mais sofisticada da economia cultural reconhecida atualmente pelo Tesouro. A cultura não depende do mercado para a sua existência. As experiências das artes oferecem prazer, terror, discernimento, conhecimento, libertação individual – tópicos bastante difíceis de quantificar. Esses aspectos intrínsecos vêm antes de qualquer tentativa de traduzí-los em termos econômicos.

Para usar a linguagem do economista Adam Smith (século 18) - o valor das artes "em uso" precede o seu valor "de troca". Quando algo é considerado desejável, o mercado pode realmente estabelecer o seu preço comercial. Mas, embora o mercado possa comercializar produtos da cultura, não se pode expressar o valor da cultura como um processo, ou o que ela faz.

A economia cultural que mede as artes tem de compreender o seu valor de uso, que envolve aspectos mais amplos de compreensão de nós mesmos e nosso mundo como, por exemplo, a antropologia e a ecologia. O valor de uso das artes é que elas ajudam a sociedade e entender de si mesma. Eles geram os símbolos e rituais que criam uma identidade comum e é por isso que a arte e a religião estão tão estreitamente ligadas. Como a religião, as artes dão acesso ao espiritual. A arte é um link para as gerações anteriores e nos ancora à história. Cultura é uma linguagem social e seríamos estúpidos sem ela.

Estes argumentos antropológicos mostram porque o governo, na esfera pública, deve assumir a responsabilidade e garantir que todos tenham acesso a essa linguagem, que é ao mesmo tempo conservadora e desenvolvida. O princípio da precaução diz-nos que temos um dever com as futuras gerações, garantindo que nossos bens culturais sejam repassados a elas.  Criatividade ocorre através da interação das diferentes formas de vida, ou formas de arte.



Quando o mercado falha



A cultura cria o capital social, expresso na confiança gerada por uma compreensão comum dos símbolos que geram as artes, e um compromisso com os valores que eles representam. Sustenta a legitimidade das instituições sociais, garantindo que eles sejam aceitos e não impostos.

Sociedades com uma distribuição equitativa dos bens culturais serão mais coesas e mais criativas. O bem-estar, que é o verdadeiro fim da atividade econômica, depende da qualidade de vida que a cultura sustenta. A palavra "cultura", afinal, significa "crescimento".

O capital social - como capital econômico - exige não só a regulamentação e os investimentos. Racionalmente, o governo deveria colocar mais verbas para as artes por causa do capital social que geram. Há o argumento econômico sólido segundo o qual, quando o mercado não consegue fornecer determinados tipos de mercadorias ao pensamento útil, então é necessário intervir - a saúde e educação são os exemplos de sempre. A economia das artes é particularmente propensa a falhas de mercado, pois não é fácil fazer os avanços na produtividade em comparação aos avanços tecnológicos oferecidos à indústria. Uma sinfonia tocada em um sintetizador não é necessariamente um ganho em eficiência.

Parece particularmente irônico, então, que o criador e primeiro presidente do ACE do pós-guerra, tenha sido o economista John Maynard Keynes. Ele acreditava que em uma recessão, os governos devem estimular a economia. Ele também entendeu o valor de uso das artes. A decisão tomada em 1940 que levou ao financiamento das artes em longo prazo não foi tomada por razões econômicas ou de saúde, inclusão social e prevenção da criminalidade. Mas foi uma decisão racional, baseada em um argumento racional: que devemos lutar pela civilização.


Texto extraído e livremente traduzido da revista online www.ifacca.org e originalmente escrito por Robert Hewison, professor de lideranças e políticas culturais da City University London.



Cristina Bokel Becker
Gestora Cultural e coordenou diversos projetos artísticos como curadora e planejadora. Relações Públicas por  vocação, atuou nas áreas de comunicação e marketing, captação de recursos e negócios em empresas variadas. Foi por sete anos Gerente de Artes e Indústrias Criativas do British Council Rio e mais
recentemente Chefe do FILME NO RIO, Escritório de Apoio ao Audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. Sua maior paixão pessoal é a dança - área onde mantém intensa atividade e colaboração.

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