O lado gelado da produção cultural…
Escrita em 28/008/10 por admin
Artigos e ColunasHá tempos eu iniciava um projeto, rabiscando ideias, formulando justificativas, esboçando desenhos possíveis do seu formato e, se fosse o caso até, articulando com alguns parceiros possíveis. Hoje, antes mesmo de as ideias se definirem totalmente, começo a esboçar uma planilha. E é na medida em que vou trabalhando nela, que as ideias vão tomando forma e as primeiras estratégias surgindo.

Começar pela planilha representa a maneira que encontrei de garantir a sustentabilidade de meus projetos e empresa. Inverti o que seria o processo normal da coisa, pois desenvolver o projeto, assim como criar a estratégia para viabilizá-lo, é quase um desdobramento natural, depois que já entrei numa empreitada.

Complicado é saber como sair de uma canoa furada, depois de estar nela. Descobri, assim, que antes de me tornar refém da paixão por um projeto, ou ideia, devo avaliar suas oportunidades de viabilização e os riscos de perda. Nada como uma análise prévia fria, para identificar tanto uma oportunidade, quanto uma roubada!

Se o projeto se mostra promissor financeiramente, provavelmente seguirei em frente. Se não, poderei igualmente seguir em frente, caso a motivação seja romântica, ideológica, ou de qualquer outra ordem, já esperando sair no zero a zero e, portanto, sem frustração. No entanto, dificilmente seguirei se o projeto for de difícil viabilização, com possibilidade de risco muito alta, assim como as probabilidades de ter  prejuízo. Um dia, quem sabe, poderei me dar a esse luxo!

Mas que planilha mágica será essa, capaz de prever o futuro e garantir se terei lucro, empatarei o capital, ou sairei no vermelho? Explico: a planilha que expresse em cada rubrica e valor estimado TODOS os custos possíveis e o montante necessário para arcar com os mesmos. Para isso, é fundamental conhecer a natureza dos custos. Custos fixos e variáveis, administrativos e tributários, tangíveis e intangíveis… e por aí vai! Também é igualmente necessário conhecer a natureza da fixação de preços. E saber distinguir preço de valor.
Um exercício que me habituei a fazer, para ajudar na avaliação e desenvolvimento do projeto, é olhá-lo sob a perspectiva do custo por pessoa. Divido a receita estimada pelo número de público estimado (considero, para estimar a receita necessária, a inclusão da taxa de administração, a margem de lucro e os tributos diversos possíveis). Assim, um montante de R$ 100.000,00 para um público de 10.000 pessoas, dará R$ 10,00 por cabeça. Se o público estimado for de 1.000 pessoas, será de R$ 100,00 per capita. O que isso significa? Nada. Só tem significado, se contextualizado. Como custo de um ingresso, R$ 10,00, por exemplo,  pode se constituir em um valor alto, para público bem jovem e de faixa sócio-econômica não privilegiada. Já R$ 100,00 pode parecer bem razoável a um público abastado, se a atração for internacional.

Vou seguindo nesse exercício, avaliando a relação custo-benefício sob o que seria a ótica dos diversos agentes do setor. Em um projeto com incentivo fiscal, R$ 100,00 per capita certamente é um valor alto, se não oferecer resultados concretos e contrapartidas em diversos níveis (sejam elas artísticas, culturais, ou sociais) que justifiquem esse investimento do governo.

É claro que não imagino que esse critério seja utilizado pelo Poder Público; mas ele serve para que eu construa o projeto numa direção tal que o valor esteja compatível com sua pertinência e relevância, procurando quantificar o que for possível. Quantificar com bases sólidas é sinônimo de mais garantia para quem investe.

Devo ressalvar que prever público e receita não é uma matemática tão exata assim. E se algo der errado? Se a meia-entrada for maior que o previsto? E se a cidade inundar e o espetáculo for cancelado? É o tal do fator risco em ação!

Todos esses aspectos, tão distantes da natureza envolvente da cultura, são absolutamente essenciais à prática da produção cultural. O setor cultural evoluiu e exige dos realizadores habilidades de gestão empresarial. E, embora isso pareça óbvio para grandes empresas da indústria cultural, grande parte dos nossos parceiros de mercado não sabe lidar com algumas concepções familiares aos empresários de qualquer outro setor produtivo:

•   Falta metodologia de planejamento, orçamento e desenvolvimento de estratégias.  

•   Confundem as pessoas física e jurídica, seus respectivos custos e necessidades distintas.  

•   Desconsideram o fator risco (que é custo e, por isso mesmo, um fator para a "precificação").  

•   Desconhecem e não se informam previamente se um contratante poderá reter 11% de INSS do pagamento (percentual que pode simplesmente significar todo o lucro de uma produção).

•   Ignoram procedimentos elementares de cálculo para chegar ao valor bruto de uma nota, a partir de seu valor líquido.

A produção cultural vive um processo evolutivo em que a exigência por profissionalização é um fato consumado. É preciso que o produtor cultural tenha conhecimento de administração, gestão, legislação, estratégia e até de vendas. Isso garantirá a execução bem sucedida de seu projeto e a saúde financeira de sua empresa. A criatividade da ideia, ou o valor artístico do projeto não dispensem essas habilidades. É o lado frio da coisa que garante a sustentabilidade dos sonhos e da inspiração.





Áurea Bicalho Guimarães
é produtora cultural. Graduada em Letras e pós-graduada em Marketing, foi Vice-Presidente do Instituto Cultural Cidade Viva. Participou de projetos como o Programa Empreendedor Cultural do Sebrae-SP, Eu Vivo Cinema Pan Americano e Circuito Copa Gourmet, além de atividades no Quadrilátero do Charme de Ipanema. No momento, é sócia da A. Guimarães Produções, realiza o projeto Futuro no Meu Jardim e participa da realização desta revista."

Comentários:
 
 O lado gelado da produção cultural…
Escrita em 29/008/11 por Guest
Adorei o artigo, deveria divulgar e muito quem sabe assim a gente evolui.
Parabéns.

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