Sustentabilidade na cultura: como não morrer na praia
Escrita em 23/008/10 por admin
Artigos e Colunas
Existindo sem patrocínio

Sustentabilidade é hoje uma das palavras mais usadas em qualquer setor: fala-se muito em preservar os recursos naturais para as futuras gerações, economizar energias, diminuir gastos supérfluos, tornar o ambiente coletivo melhor para todos.

Sustentabilidade também significa: como eu vou ser auto-suficiente, qual a estratégia que meu negócio vai adotar para manter-se no mercado de forma produtiva nos próximos anos? Como fazer para - com recursos financeiros limitados - produzir obras/eventos culturais, pagar os custos fixos, e ainda conseguir reservar alguma quantia para re-investir no negócio?

Na moda, isto também acontece: o pequeno produtor/estilista enfrenta dificuldades como nos outros setores para criar e manter seu negócio. A maioria dos estilistas se forma em universidades, aprende o lado mais estético - e nada do comercial. Algumas abrem suas marcas, mas são poucas são as que sobrevivem ou chegam aos cinco anos de vida. Geralmente, fecham por problemas administrativos e prejuízos financeiros.

Em todos os casos, o sucesso existe quando há uma boa gestão.

Por que a cultura é inviabilizada?


Na prática, de forma geral, são poucos os que conseguem desenvolver alguma espécie de genialidade para sobreviver no mercado e não quebrar! Isto quando o produtor não leva um calote ou leva meses para receber pagamentos por trabalhos realizados (muitos empresários que fazem a intermediação com o patrocinador recebem o aporte financeiro, aplicam e pagam os produtores/fornecedores com retiradas de aplicação).

Somos reféns do patrocínio? Do Mecenas à Lei do Mecenato


As leis de incentivo e fomento para o produto cultural existem, mas o produtor é sobrecarregado de impostos e encargos abusivos que inviabilizam as suas realizações, ou seja, o produtor/empresário cultural é penalizado.

Anos atrás, um empresário podia investir em seu negócio. Um exemplo disto é a Babilônia Feira Hype (feira cultural que aconteceu no Jockey Club Brasileiro/RJ de 1996 e 2007) e que foi criada e produzida com pouquíssimos recursos (tanto dos produtores, quanto dos participantes/expositores).

Um caso de modelo auto-sustentável: a incubadora Babilônia Feira Hype

O evento começou com custos baixos, de forma simples, uma feira, com despesas e receitas administradas como um condomínio (a receita vinha do aluguel de estandes). O endereço era inédito, num local onde não acontecia nada: a Tribuna C do JCB nos anos 1990, que não tinha programação, não era espaço de eventos. Com o sucesso da BFH, outros eventos começaram a se instalar ali, inflacionando o aluguel, e competindo na agenda com a BFH que, começou a ficar inviabilizada. Sob outro aspecto, o evento, além do entretenimento, lançou novas marcas e também serviu de base para negócios de muitas marcas que já existiam (com pequenas lojas na zona sul), mas que precisavam captar novos clientes e ampliar suas vendas. A BFH viabilizou mais de quatro mil marcas que passaram por lá, várias delas estabelecidas hoje no mercado (Farm, Via Mia, Espaço Fashion, Foxton, Complexo B), e os números de seus onze anos de funcionamento são representativos: mais de mil empregos diretos e quatro mil indiretos (além de ativar a cadeia produtiva da moda, que vai desde a colheita do algodão à vendedora da loja). Desde 2007, os custos do evento, somados aos impostos, inviabilizaram sua continuidade,  apenas tendo como receita apenas a venda de estandes.

A BFH foi um evento famoso, badalado, e que perdemos: a volta dela hoje, somente  seria possível, financeiramente, através de patrocínios. O mesmo acontece em outras áreas: no teatro, por exemplo, tivemos recentemente o triste anúncio, feito pela Companhia dos Atores, do fechamento do galpão no Caju onde funcionavam além dos seus ensaios, oficinas e festivais, conforme foi relatado em matéria de julho no segundo caderno do jornal O Globo. A companhia não tem como arcar com  os custos fixos do da sua sede.

Investindo na Gestão da Economia Criativa

Os governos deveriam  valorizar e apoiar iniciativas que geram valores, recursos, que atuem em funções análogas as dos setores públicos (como gerar renda) e trabalhar em prol do crescimento e do aumento da qualidade de vida da coletividade.

O fomento da economia criativa é uma estratégia certeira para estimular o desenvolvimento do país e gerar recursos; portanto,  nada mais lógico que o estado conduza esta questão, abrindo portas, facilitando iniciativas, e trabalhando junto com o produtor/empresário, como um parceiro – e não como um inquisidor, só cobrando (impostos). Devem haver políticas mais justas e reais de estímulo ao empreendedorismo, que fomente ações para os novos negócios, para as novas gerações, favorecendo iniciativas empresariais.

Se existisse esta parceria, não estaria acontecendo o fechamento da sede da Cia dos Atores - pelo valor cultural que a iniciativa agrega, seu fechamento é patético; o mesmo vale para a BFH que não teria parado (na época, foram inúmeros pedidos à prefeitura tentando obter ajuda na busca de um espaço, e nada). Os governos devem apostar cada vez mais na parceria com as produtoras locais, estimular os eventos. Vejamos o caso da moda: as semanas de lançamento de coleção movimentam duas vezes por anos, por uma semana, a cidade: quantos pequenos eventos/empresários não se beneficiam? Quantas pessoas não circulam pela cidade? Porque isto não pode acontecer o ano todo, com eventos nos vários segmentos da cultura?

Outros casos de incubadoras

Vale destacar mais dois exemplos, recentes, de uma parceria do estado com  produtores/empreendedores: o Escritório de Apoio à Produção Cultural (2008) e as Incubadoras de Empreendimentos de Economia Criativa (2010), iniciativa da Secretaria de Cultura do Governo do Estado em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, a prefeitura do Rio e o Instituto Gênesis da PUC-Rio.

O Escritório de Apoio à Produção Cultural (parceria com o Sebrae/RJ e o Ministério da Cultura) visa dar sustentabilidade aos projetos culturais (desde cultura popular ao cinema e música), através de consultores. Eles dão apoio aos agentes culturais desde a elaboração de seus projetos ao até o auxílio na prestação de contas e contabilidade;  no marketing e produção cultural;  cultura digital e na orientação das diversas linhas de financiamento para a cultura (Leis de Incentivo Estadual/ICMS e federal/Rouanet).

Já a incubadora é mais voltada para a sustentabilidade do empreendimento criativo e para o artista ou produtor que tem uma instituição, que aprende como fazer para que ela sobreviva no mercado. Por um ano e meio, os premiados recebem um escritório, sala de reuniões/palestras e condições para a residência. Além da infra-estrutura, a instituição recebe qualificação gratuita sobre plano de negócios, empreendedorismo, assessoria jurídica, assessoria de imprensa, contabilidade, entre outras ações.

Nas palavras de Marco André, coordenador de Economia Criativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro: “O Sebrae tem uma pesquisa que demonstra  que  80% dos empreendimentos culturais acabam em até cinco anos. No entanto, quando esses empreendimentos passam pelo processo de incubação a estatística se inverte, 80% das instituições sobrevivem depois de cinco anos no mercado. Eu acho que a Economia Criativa é uma pauta estratégica para o Ministério da Cultura e as secretarias de Cultura dos estados. O Brasil ainda está tomando conhecimento da grandeza da Economia Criativa como um agente de crescimento sustentável e de possibilidades incríveis pro país” (1).

Outro bom exemplo de incubadora é o Centro Metropolitano de Diseño (CMD) (2), instituição pública inaugurada este ano em Buenos Aires, uma incubadora para empreendedores da indústria criativa que mantêm vários projetos de ensino e acompanha as empresas no aperfeiçoamento do design e da gestão,  para melhorar sua competitividade. O CMD está localizado em Barracas, área semi-abandonada,  próxima ao centro de Buenos Aires, que está sendo revitalizada pelo governo com o favorecimento da abertura de ateliers, restaurantes, lojas, tornando-se o mais novo bairro cultural depois de Puerto Madero e Palermo Soho. É uma ação do governo que, com nova gestão, devolve para a coletividade o que não tinha uso, revitalizando regiões estratégicas da cidade.

Estes projetos são todos bons exemplos de casos de sucesso da parceria estado-produtor,  de custos relativamente baixos, onde o produtor/empresário encontra ajuda profissional para resolver as questões mais burocráticas e práticas, e com isto consegue ter mais tempo para se voltar ao que realmente é a sua vocação: criar produtos culturais. Projetos ousados, de simples realização e que podem ser replicados!



Fernando Molinari
- Diretor Executivo do Instituto Brasileiro de Cultura, Moda e Design/Inbracultmode, pós-graduando no MBA Gestão Cultural/UCAM. Criador e produtor da feira cultural Babilônia Feira Hype e do portal Roda da Moda (acervo digital do Inbracultmode de vídeos e fotos sobre arte e processo criativo). Atualmente, coordena o Prêmio Rio Moda Hype (concurso de desfiles para novos talentos na Semana de Moda do RJ), e ministra a aula “Eventos de Moda” no curso Gestão do Entretenimento da FGV.


FONTES

(1) Entrevista no Blog da Coordenação de Economia da Cultura com Marcos André (coordenador de Economia Criativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro):
http://culturadigital.br/ecocultminc/2010/04/20/estado-do-rio-aposta-na-formalizacao-e-qualificacao-do-setor-cultural/ (acessado em 21/08/2010).

(2) Centro Metropolitano de Diseño - CMD: http://www.cmd.gov.ar

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