Eles estão entre nós
Escrita em 23/008/10 por admin
MercadosCom o bom momento da economia brasileira, são cada vez mais frequentes as notícias que confirmam a vinda de artistas internacionais para apresentações no Brasil. Se a venda de discos já não garante seu sustento, cantores, cantoras e bandas aventuram-se em turnês por todos os continentes – em circuito bem maior que o praticado em outras épocas – em busca de retorno financeiro. Tornar viável a vinda de tais artistas é o xis da questão para o produtor cultural que resolve se aventurar por esses caminhos.
Para entender melhor como funciona esse métier, entrevistamos Ana Garcia, produtora do festival No Ar Coquetel Molotov, que sacode as cidades de Recife e Salvador em setembro, coma presença de bandas de rock e outros astros da música internacional.

O primeiro passo para trazer artistas internacionais é procurar seus agentes?

O primeiro passo é procurar o contato. Tento sempre falar primeiro com o artista, para sensibilizá-lo, já que tenho um festival independente. Nem sempre tenho esta sorte e acabo tendo que lidar com o agente ou empresário, que obviamente só pensa na parte financeira. Ou na maior parte das vezes. Ultimamente, por exemplo, estou lidando com um empresário muito simpático, então está sendo ótimo. Mas sempre tento ir direto ao artista.

Que tipos de parcerias podem ajudar a trazer os artistas?

É complicado fazer um show independe no Recife sem o artista internacional ter uma turnê. Sendo assim, criar uma agenda para diluir os custos é importante. Muitas vezes fazemos parcerias com instituições como o Consulado Geral da França e o Swedish Institute, para a Invasão Sueca, por exemplo. Os Sescs em São Paulo têm sido um grande parceiro nos nossos shows internacionais também, assim como o Studio SP/ Comitê.

Como se dá a negociação do cachê dos artistas? E qual a conta que o produtor faz para tornar tal vinda viável?

Isso depende muito. Por exemplo, trouxemos o Jens Lekman, da Suécia, sem ajuda institucional. Foram duas passagens, cada show tinha que ter um cachê mínimo de dois mil dólares. Então, tivemos que vender o show de tal forma que cada cidade cumprisse com parte dos custos. É difícil fazer dessa forma, mas não impossível, principalmente porque conseguimos tirar lucro em cidades como São Paulo, onde a bilheteria pode ser forte. Mas com um festival, como o No Ar Coquetel Molotov, que tem patrocínio da Petrobras e da Vivo, conseguimos convidar artistas de grande porte sem depender das turnês necessariamente. Já a Invasão Sueca tem grande parte dos seus custos, como as passagens aéreas, bancadas pelo Swedish Institute. Isso ajuda bastante.

Os artístas trazem equipamentos? Como é feito o transporte e a liberação?

Sim, muitos trazem. O Dinosaur Jr. é um bom exemplo, estão viajando com algo em torno de 2 mil dólares de bagagem extra. Cabe ao produtor pagar o peso extra, normalmente é assim. Como todos estão com visto de trabalho, não passa disso.

E os técnicos, eles trazem usam os técnicos daqui?

Alguns artistas trazem, outros não. No nosso caso, sempre temos um iluminador incrível para atender todas as bandas. A interação entre equipe técnica internacional e nacional rola tranquilamente. O importante é ter uma boa equipe.

Equipes dos artistas internacionais se misturam às equipes brasileiras na montagem da estrutura para os shows, em geral?

Sim, mas estou falando de artistas médios, independentes.

Como é feito o pagamento? Existe remessa de recursos para o exterior?

Isso é o mais complicado. Sempre é necessário pagar uma taxa para fazer as transferências bancárias. São taxas muito altas. Algo em torno de 25% do valor do cachê. Quando é um valor pequeno podemos pagar como apoio de viagem e aí o valor é bem menor.

E os contratos, são feitos aqui, ou lá no exterior? Tem muita formalidade nisso?

Normalmente recebemos os contratos da agência da banda. São internacionais e como um amigo meu falou ‘It's just a piece of shit’. Shit é parecido com a palavra sheet, que é papel. Sim, são mais simples que os contratos nacionais, por incrível que pareça.

Que artistas/bandas vieram de fora na história do festival e que retorno deram?

De mídia, várias, como Teenage Fanclub, Tortoise, Nouvelle Vague, Peter Bjorn and John, Sebastien Tellier… nunca dependemos dos artistas para ter um retorno financeiro.

Exigências (hospedagem, companhias aéreas) também entram no pacote?

Sim. Sebastien Tellier, por exemplo, só viaja de primeira classe e com vôo direto de Paris. Pagamos quase R$ 10 mil pelas passagens. Mas normalmente os artistas independentes são flexíveis. Ah, também pagamos caro pelos hotéis da banda Beirut Brasil afora…

A Coquetel Molotov é um coletivo de produtores? Como funciona?

Somos três pessoas. Somos uma produtora que trabalha com diversos grupos para realizar um trabalho – como os designers da Mooz e Raul Luna, as fotógrafas Caroline Bittencourt e Flora Pimentel, bandas, etc.

O que podemos esperar do próximo festival No Ar Coquetel Molotov?

Ele acontecerá nos dias 24 e 25 de setembro no Centro de Convenções da UFPE, em Recife; e nos dias 25 e 26 na Concha Acústica, em Salvador. Alguns nomes confirmados são A Banda de Joseph Tourton, Otto, Anna Von Hausswolff, Taken By Trees, Emicida.

Direitos autorais de artistas estrangeiros


Astros internacionais, como Madonna, Elton John e dois integrantes do Iron Maiden, apareceram bem colocados no ranking de arrecadação de direitos autorais em 2009, divulgado pelo Ecad. Figuram na lista por conta dos megashows realizados no Brasil naquele ano. Os valores são repassados pelas associações ligadas ao Ecad para os escritórios internacionais que cuidam dos direitos desses artistas.



Nas artes plásticas, parcerias também ajudam

No universo das artes plásticas, quem nos guia no caminho das pedras para expor fora do Brasil ou trazer trabalhos para cá é a curadora e crítica de arte Daniella Géo, fotógrafa brasileira radicada na Europa e doutoranda da Sorbonne Nouvelle – Paris III:

“As exigências para propor um projeto de exposição a uma instituição no Brasil ou no exterior são basicamente as mesmas. A diferença fundamental é que o transporte seguro e os impostos costumam aumentar consideravelmente os custos de mostras internacionais, além de demandar um conhecimento específico para lidar e muitas vezes driblar as dificuldades burocráticas do trâmite entre os países envolvidos no projeto”, explica. O ideal, segundo ela, é trabalhar com produtores experientes e/ou transportadoras especializadas de referência. “A não ser, é claro, que não haja necessidade de cuidados especiais, como no caso do transporte de DVDs, que geralmente são apenas cópias de exposição sem valor comercial, por exemplo, ou de muitos projetos de intervenção urbana, site-specific e performance”, acrescenta ela.

Daniella diz que as embaixadas brasileiras costumam dar apoio institucional, eventualmente algum suporte financeiro, quando abraçam o projeto no exterior desde o princípio. “O MinC e a Fundação Bienal têm programas de financiamento de passagem, hospedagem e alimentação que viabilizam a viagem de artistas e demais profissionais da área. Porém, para não entrar em pânico, é preciso estar ciente de que os bilhetes aéreos concedidos pelo Ministério são comumente emitidos quase na véspera da partida. Gera uma certa ansiedade, mas é um apoio importante”, ressalta.

Comentários:
 
 Parabéns
Escrita em 08/009/10 por PauloQuental
Muito legal o trabalho do Coquetel Molotov

PauloQuental

 Bem Legal!
Escrita em 08/009/10 por Guest
A entrevista parece ter rendido muito e foi bem esclarecedora em como artistas estrangeiros vem para cá, mas um ponto que eu não entendi foi se ela tem parceria com a cidade de São Paulo ou se ela também faz produções lá. E foi bem interessante a última parte dos artistas plásticos, bem legal essa ajuda do governo, não tinha idéia que eles faziam isso.

 Importante!!
Escrita em 19/009/10 por Guest
Impressiona.

 Impressionante
Escrita em 31/005/11 por Jussara
Muito bom esse site! Recomendarei para todos meus amigos produtores!

Outras notícias e comentários adicionais estão disponíveis em: Fazer e Vender Cultura
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores.