Novidades na articulação: os coletivos e um movimento
Escrita em 23/008/10 por admin
Artigos e ColunasQuando o Clube da Cultura nasceu, em 1994, optamos pela informalidade. Decidíamos nossas questões em plenárias, tínhamos grupos de trabalho para organizarmos nossas propostas sobre temas específicos, e íamos tocando a vida. Os participantes eram dirigentes e gestores das maiores instituições culturais do Rio e todo mundo era muito ocupado, cheios de problemas para resolver e vivíamos todos imersos em formalismos, hierarquias, regras, licitações, orçamentos, burocracia e todas os entraves típicos a um pensamento livre, leve e solto comum nas grandes organizações. Tinha gente de grandes empresas, de órgãos públicos, secretárias, ministério, ONGs, Bancos, Forças Armadas, Universidades – públicas e privadas, enfim, o único ponto comum era que todos trabalhavam diretamente com a parte cultural dessas instituições.

Este modelo, meio visionário e “alternativo” de fórum, despojado em sua ambição de poder, resultou para nós em algumas experiências muito interessantes, diversas realizações coletivas e, o melhor de tudo, estabeleceu uma rede de relacionamentos interpessoais capaz de produzir ótimos e esclarecedores debates que resultaram no surgimento de idéias muito legais. Aprendemos muito, uns com os outros.  Para os pequenos grupos formados entre os participantes – por afinidades, oportunidade ou interesses específicos – esta aproximação se mostrou muito proveitosa e produtiva. E sempre foi muito agradável participar dos nossos encontros.

Este mesmo caminho, em 2010, vem sendo trilhado por centenas de grupos , Brasil a fora,  no que se convencionou chamar de “COLETIVO”.  Diante das brechas deixadas pelos organismos de representação oficiais ou oficializados e da enorme informalidade do setor cultural, começam a se multiplicar coletivos que, em geral, têm a mesma atitude que gerou o Clube da Cultura - a inquietação, a vontade de fazer alguma coisa para melhorar nosso cenário de trabalho e a necessidade de quebrar o isolamento no qual todos vivemos, ainda que estejamos mais conectados uns aos outros do que nunca. Os coletivos pretendem estabelecer instâncias de micro-articulação atendendo a esta vontade de estarmos juntos, mas numa relação igual, horizontal e democrática. O “povo da cultura” se adapta muito bem ao sistema já que temos esta tendência para a informalidade, seja no comportamento, no falar, e no look-and-feel. Quem trabalha com cultura é por perfil, descolado.

Coletivos são grupos de pessoas ligadas à cultura, com algum interesse em comum, estruturada em plenárias, sem hierarquia e que não tem pretensões de constituir juridicamente.  É meio anárquico mesmo. Seus integrantes só querem ter propostas comuns e atuar em conjunto, sem caciques. Eles estão por toda a parte, pulverizados, defendendo pontos de vistas locais e, principalmente, agindo coletivamente. Podem ser artistas, produtores, intelectuais ou fans, não importa. Mas têm que ser militantes. Militantes! Sim, porque na cultura existe militância, diferente dos outros setores.  A militância da cultura tem uma atitude “evangelizadora”, por assim dizer, buscando conscientizar os outros da importância do que fazemos para o progresso do mundo. E uma incrível vontade que as pessoas percebam o óbvio: a cultura é uma solução, até para descobrir qual é o problema.

Naturalmente, os coletivos ainda são muito desarticulados entre si. Não têm estrutura, recursos financeiros ou diretoria. Mas têm muita energia. Fizeram bonito com suas participações efetivas nas Conferências de Cultura – até mais que as organizações formais levando suas propostas e suas idéias.  

E, na medida em que se articulem melhor, muitas novidades poderão surgir.

Neste contexto, surge um movimento que propõe a criação do ”Partido da Cultura”. O manifesto está circulando na Internet e pretende ser uma pauta coletiva, suprapartidária, com objetivo de comprometer políticos e governantes com necessidades objetivas, legais e institucionais que, como temos visto, sempre são deixadas para um segundo plano. A idéia é que cada um cobre de seus candidatos o compromisso com estes pontos.

Não conheço as lideranças deste movimento, nem qualquer de seus integrantes, nunca fui a nenhuma reunião com eles, mas acho que a lista de reivindicações é consistente. Se você é um militante da cultura, vale a pena conhecer:



Partido da Cultura




Miguel Gomes
é advogado, produtor cultural e consultor. Presidente do Clube da Cultura, professor do Departamento de Comunicação da Puc-RJ e Publisher de Fazer e Vender Cultura.

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