Conversa com o produtor <<Anterior

 

Orlando – Eu fui um dos primeiros a ser colocado em disponibilidade e proibido de entrar no prédio, junto com Carlos Miranda, que dirigiu o órgão junto comigo, embora eu fosse o responsável. O Conselho teria a função de decidir a história do dinheiro dado. Depois que Sérgio Rouanet saiu, entrou Antônio Houaiss. A verdade é que qualquer ministro que entre, de esquerda ou de direita, quer ficar sempre com o poder do dinheiro na mão. Aí tiram esse poder do Conselho, que não decide mais nada. O dinheiro dessas estatais está à disposição, mas são eles que decidem o que fazer com a cultura. Por isso, enfatizo que esse dinheiro deveria ser entregue ao Ministério da Cultura. Afinal, a Caixa Econômica, por exemplo, deve entender de economia e não de cultura. Não adianta ter gente que entenda de cultura lá dentro. Há um monte de gente trabalhando nesses órgãos. Mas então temos quantos ministérios da cultura, mais de 30? Não deveria ser assim. O Ministério da Cultura deveria traçar a política e a decisão deveria ser dos órgãos ligados a esse ministério junto com as categorias. No tempo da ditadura havia mais uma política participativa.

Norma – Foi uma época em que a classe ligada à cultura era mais unida. E todos éramos contra as ações dos governos da ditadura. Nós tínhamos uma preocupação de ganhar o público, inclusive a ACET (Associação Carioca de Empresários Teatrai), tinha esse objetivo. Como havia o financiamento, se o público fosse pequeno, a peça continuava mesmo assim.

Orlando Miranda – Havia uma consciência. É lógico que se eu puder correr atrás de patrocínio, vou atrás de todo mundo, mas isso não é necessário para uma produção. Esse é o meu trabalho. Mas há o contrarregra e todo pessoal que trabalha para a peça acontecer.

Miguel – Esse papel é do produtor e não do artista. É preciso um empreendedor para gerar esse trabalho.

Orlando Miranda – Já participei de várias reuniões e tive vários desentendimentos sobre essas questões da viabilidade dos empreendimentos teatrais. Lembro do Ivan Albuquerque, do Teatro Ipanema, já falecido, que teve dificuldades financeiras no fim da vida. É muito comum, hoje, os teatros serem vendidos para virarem igreja. Alguma coisa não está certa. Lembro de Aderbal Freire, que durante dois anos ficou enrolado em dívidas. Só agora está bem.  O Teatro Galeria está à venda e ninguém quer comprar.

Sérgio – Quanto vale o Teatro Galeria?

Orlando Miranda – Há seis meses queria R$ 2 milhões; agora estou pedindo R$ 3 milhões e meio. Os imóveis subiram muito. Teatro é difícil de vender, pois precisa de manutenção.

Miguel – Aqui no Brasil o ator acaba virando produtor, pois há poucos produtores profissionais. Mas são atividades incompatíveis. O sonho do artista é fazer o trabalho dele com um produtor que tome conta da produção. Mas não é isso que acontece, pois não há um mercado regular em que se possa ser apenas produtor.Então,  se o artista não virar produtor, acaba não trabalhando.

Orlando – O artista vira produtor e acaba contratando um assistente para dirigir a produção para ele.

Norma – Em sua época, Walter Pinto e Carlos Machado eram grandes empresários que dirigiam os teatros. E assim é que deveria ser.

Orlando – Estou no Teatro Princesa Isabel há 46 anos. Nunca vi jorrar tanto dinheiro para a cultura. Mas está mal dirigido.


Sérgio – Uma indústria tem que ser fortalecida para andar com suas próprias pernas. O empreendedor precisa de um mercado. É um mundo capitalista.

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Orlando – Lembro que estive com uma produção chamada “Botequim”, com a Marlene, em São Paulo. Naquele segundo semestre de 1973, havia apenas quatro peças de teatro. Mas hoje os teatros no Brasil são grandes e há várias produções estrangeiras que vêm para cá. Há uma grande movimentação na vida cultural. Os recursos estão à disposição de todos. Mas não estamos sabendo usar.

Miguel – Grandes artistas, como a Beyoncé, por exemplo, têm espaço. A grande questão é qual o valor que as pessoas dão para a cultura. Quanto as pessoas estão dispostas a pagar? A meia-entrada é um reflexo do pouco valor que se dá para a cultura. A Globo e a DPZ, por exemplo, estão abrindo uma empresa de eventos culturais. O custo da produção cai para 20% e essas empresas contam com a mídia, que dá visibilidade.

Orlando – A mídia não cita muito os teatros. É preciso ter interesses comerciais.Há momentos significativos. Atualmente há muito dinheiro circulando para a cultura. Houve um período muito rico que foi durante o governo Castelo Branco. Ele era apaixonado por teatro e costumava conversar muito com Procópio Ferreira. Naquele momento era possível conseguir muita coisa para o teatro. Os teatros pagavam 30% de imposto para o estado.

Miguel – Atualmente se o ingresso custa R$ 10,00, 35% irão para o teatro, 10% para o Ecad..

Orlando – Há um jeitinho brasileiro. Os teatros pagavam 20% de imposto para o Estado. Nacionalmente, era o IBGE que cobrava, durante o governo Castelo Branco. Todos queriam distância dele porque era um dos cabeças da ditadura. Mas ele gostava de teatro e seria possível conseguir muita coisa. Aqui no Rio de Janeiro, o governador Lacerda proibiu os fiscais de irem ao teatro e eu, por exemplo, nunca paguei nenhum imposto. Hoje o teatro está isento de imposto. Paga imposto de renda, que depende do faturamento. Paga também uma taxa de lixo. O INSS é preciso pagar, no caso de haver outra atividade no teatro.

SérgioComo o seu teatro é mantido?

Orlando – Quem paga o teatro sou eu. Há três anos. A renda do bar ajuda a produção. Há uma decadência do bairro também. Hoje a preferência é para teatro de shopping. Há estacionamento e outras atividades. Sábado em Copacabana é assustador. O teatro é perto do ponto de ônibus e o público é péssimo.

 

 

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Participaram desta entrevista:

Miguel Gomes, produtor cultural, presidente do Clube da Cultura, e editor de Fazer e Vender Cultura; Nomar Dumar, atriz, produtora e diretora teatral e Sérgio Magarão, médico, professor, ex-Reitor da UNI-Rio e ex-presidente do Clube da Cultura