Conversa com o produtor <<Anterior ....Próxima>>


Miguel – Você foi presidente da Fundação Nacional de Artes Cênicas (que depois virou FUNARTE) por quanto tempo?

Orlando – Onze anos na presidência, durante o período da ditadura até o início do governo Sarney. Depois, assumiu o Carlos Miranda, que ficou por quatro anos. Mas as subvenções ainda continuaram para o teatro amador, trabalhos de pesquisa. Hoje tem um fator desagregador muito grande que é o patrocínio.



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SérgioPatrocínio privado? Você estava falando do financiamento do governo.

Orlando – O patrocínio privado baseado em lei de incentivo. Trabalhei na elaboração da Lei Rouanet, com Sérgio Rouanet, que atualmente está sendo mudada. É uma lei excelente. A Lei foi muito bem pensada, mas desvirtuada com o tempo. As grandes empresas passaram a entender que essa Lei poderia trazer resultados positivos, como já acontecia no mundo inteiro. Começaram a descarregar dinheiro através da Lei Rouanet. E começaram a se locupletar com isso. Hoje a maior corrupção não está nas verbas dadas pelo governo, mas sim nas empresas particulares. Há escândalos violentos, que não são divulgados. Há corrupção muito grande na área da cultura como em qualquer outra área. A gente ouve falar que é preciso dar de 30% a 40% do dinheiro que recebem dos patrocinadores.


Miguel – E, se o patrocinador agir de comum acordo com o proponente,fica difícil conseguir identificar o trambique. As leis de incentivo partem do pressuposto que o patrocinador vai fiscalizar – e fiscaliza, se é uma empresa séria. Mas se for um picareta, pode armar em cima. Mas isso não é matéria de cultura, é assunto fiscal e policial e acontece na economia de modo geral.

Orlando - E as pessoas começaram a fazer peças sem critérios. Funciona assim: se você precisa dar um percentual de volta ao patrocinador e depois bota no bolso algum dinheiro, não vai conseguir manter a peça em cartaz. Os aluguéis do teatro são caríssimos. A bilheteria não dá o suficiente. Há casos diferentes uns dos outros.

O governo atualmente investe muito na área cultural. Nos últimos oito anos, durante o governo Lula, nunca se investiu tanto em cultura. Durante os onze anos em que eu estive à frente da Fundação, o governo não investiu nem 5% do que está sendo investido hoje. É incalculável o dinheiro que está sendo investido na cultura. O que é fantástico e maravilhoso! Mas é preciso saber de que forma está sendo feito esse investimento. A meu ver, esse é o grande drama. É um mérito do governo Lula.

Sérgio – É um mérito, mas na verdade é uma obrigação da Constituição Federal.

Orlando – Mas mesmo assim nunca se investiu tanto na área cultural. Eu fui do Ministério da Educação durante quarenta anos. Foi de Capanema para cá que realmente a cultura ganhou espaço. Foi um período rico de ideias, mas não de recursos. Foi no período da ditadura, no entanto, que os recursos foram seriamente aplicados e com ampla discussão aberta. Em matéria de investimento, foi na época da ditadura que isso melhor aconteceu. Acredito que toda a classe teatral irá concordar comigo (a não ser aqueles que têm medo de falar bem da ditadura). Mas foi o momento mais sério que existiu para aqueles que estavam à frente dos órgãos de cultura e na defesa da classe teatral. A categoria participava.

 

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Em termos de recursos financeiros, esses últimos oito anos foram os melhores. O governo Lula promoveu isso, mas acredito que ele não saiba, mas está criando um problema muito grande para a área de cultura, porque não se faz mais nada sem patrocínio, Mas a palavra patrocínio, não existia. . Eram subvenções federais. Existiam permutas. Os governos federais, estaduais ou municipais financiavam móveis, por exemplo, para as peças. Mas ninguém ficava satisfeito. Só os “amigos” eram beneficiados. Eram trocas políticas e havia muita briga. A vida de produtor era um verdadeiro inferno.

Sérgio – Essa lógica não viabiliza o mercado?

Orlando Miranda – Por isso é que eu chamo de campo minado. Ninguém investe nada. Tenho dois teatros. O Teatro Galeria está fechado e à venda. O Teatro Princesa Isabel vive às minhas custas. Eu quero produzir. Agora fui contratado pela Ruth Werneck para ser diretor de produção, pois não aguento ficar parado. É uma peça do Beckett. Mas não vou ganhar nada com isso, pois ficarei apenas com um percentual que não representa nada. Já mandei muitos projetos para Petrobras, por exemplo, e até agora não tive nenhuma resposta.

Sérgio – Cria-se uma lógica das empresas, que funciona como um filtro do que elas vão patrocinar. Isso cria um problema muito sério, pois poucas empresas têm, por exemplo, uma Maria Arlete, que possui uma visão mais aberta. É muito melhor patrocinar uma Ivete Sangalo fazendo uma Micareta, do que patrocinar uma peça de Beckett. Para uma empresa que está focada em aparecer não é negócio patrocinar uma peça de Beckett.

Orlando O Banco Itaú talvez seja o maior pesquisador que exista no país na área de cultura. Eles distribuem uma revista excelente de pesquisa nessa área. Usam a Lei Rouanet para fazer esse trabalho. Todas as grandes estatais do governo hoje fazem cultura. Sempre achei que esse dinheiro das estatais deveria ir para o Ministério da Cultura, que vive de pires na mão junto com aqueles que querem produzir. Falo isso como presidente da Associação Cultural da Funarte, onde estou há sete anos, mesmo não sendo do quadro do PT. Sou funcionário aposentado, mas tenho o dever de apoiar.

Essas estatais não podem repassar para a Funarte, que é um órgão de administração direta, é uma fundação ligada diretamente ao governo. Não pode receber dinheiro da Petrobras, mas a Associação pode. Mas não acho que deveria ser dessa forma.

Miguel – Essa é a proposta da Lei Rouanet, né? O “bolo” fica na mão do governo, que depois distribui.

Orlando Miranda Esse “bolo” eu conheço bem. No tempo do FNDE, o Delfim Neto tinha o olho lá, pois era de lá que vinha todo o dinheiro. Era o grande caixa do governo. Um dinheiro inclusive que sustentava o teatro. Nenhum Ministro da Educação admitia perder essa verba do FNDE. Pode ser que eu me engane, mas essa história da Lei Rouanet deve seguir o mesmo esquema. O ministro decide e fica com o Pronac, que é um fundo perdido.

Miguel – Depois do período Sarney, veio o governo Collor de Mello, que acabou com a Lei Sarney e com o Ministério da Cultura e colocou o Ypojuca Pontes numa Secretária de Cultura da Presidência, com status de Ministério e acabou terminando com muita coisa, inclusive a Funarte. Foi um desastre.

 

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