Conversa com o produtor   Próxima>>

“Nunca vi jorrar tanto dinheiro para a cultura”

Mês passado, junho de 2010, Orlando Miranda ganhou a Medalha Tiradentes por sua atuação como produtor cultural.  Um merecido reconhecimento para um dos principais dirigentes culturais do país, que criou o Inacen – Instituto Nacional de Artes Cênicas (depois transformado em FUNARTE) e é dono de dois teatros  (o Princesa Isabel, em Copacabana, funciona regularmente e foi palco de importantes encontros da “classe”).

Orlando recebeu Fazer e Vender Cultura para esta conversa em seu teatro, antes do chopp no bar da esquina. Juntos estavam Norma Dumar e o professor Sérgio Magarão.

Participaram desta entrevista: Miguel Gomes, Orlando Miranda, Norma Dumar e Sérgio Magarão

 

Miguel Gomes - Há cinquenta anos a meia-entrada já existia? E o preço, era um impeditivo para o acesso dos jovens ao teatro?

Orlando Miranda - Era preciso dar ao povo acesso à cultura, mas não existia obrigatoriedade de meia-entrada. Apenas uma vez na semana, às quartas-feiras, o ingresso custava a metade do preço normal.

Havia promoções comerciais. O governo Vargas, por exemplo, facilitava as companhias teatrais com passagens de trens. A reforma do ensino e da cultura aconteceu justamente no período Vargas, em 1937, quando foram criados o Serviço Nacional de Teatro e o Serviço de Radiodifusão Educativa, entre outros. Essa estrutura toda está ainda aí, através das fundações.

Sempre fui a favor da administração pública. Mas os tempos mudaram e criaram as fundações. O Inacen foi criado e, depois, a Fundacen, ambas dirigidas por mim.

Norma Dumar - O Jornal do Brasil fazia promoção do professor levando aluno. Era um caso especial, um projeto. Havia uma tática comercial.

Orlando - Na verdade o estudante nunca se interessou em ir ao teatro. Só depois, no período da ditadura, é que houve um interesse, pois a postura mudou e os estudantes queriam participar de espetáculos de protesto. Nesse momento, o pessoal da comunicação social passou a ser parte integrante da cultura. Estavam sempre presentes nos debates contra a censura. O teatro sempre esteve de portas abertas para todos, mas fazia promoção uma vez na semana.

Sérgio Magarão - Mas o preço não chegava a ser o maior obstáculo para que os estudantes viessem ao teatro.

Orlando - Foi criada então a Campanha das Kombis, que oferecia ingressos baratos (cinco cruzeiros, ou cruzados, na época). O governo fazia um repasse e pagava a campanha toda. Todas as peças entravam. Antigamente as peças todas saíam de cartaz em novembro e só retornavam em março. Nesse período a cidade ficava sem vida cultural e artística.

A campanha atingia também o objetivo de manter as peças em cartaz nesse período. Ela ajudou a recuperar muitas peças que não estavam indo bem. O preço do bilhete era barato. A associação dos produtores entrava com recursos. Os teatros lotavam.

Era uma política de produção. Todos esses mecanismos sempre foram pensados tendo o público como principal foco.

Miguel - E como eram feitas as produções de teatro? Havia patrocínios?

Orlando - Essa palavra, patrocínio, não existia. Eram subvenções federais. Existiam permutas. Os governos federais, estaduais ou municipais financiavam móveis, por exemplo, para as peças. Mas ninguém ficava satisfeito. Só os “amigos” eram beneficiados. Eram trocas políticas e havia muita briga. A vida de produtor era um verdadeiro inferno.

 

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Sérgio – Você está falando de patrocínios públicos?

Orlando - Mas o governo da ditadura acabou com a figura do patrocínio oficial. O que sempre houve foram as subvenções do governo para a produção.

A categoria teatral entendeu que não deveria ter este tipo de patrocínio do governo e solicitou empréstimos com juros mais baixos, como toda a indústria e comércio. Decisão tomada por representantes de toda a classe teatral - associação de operários e empresários teatrais - no palco do Teatro Princesa Isabel.

Aí o teatro profissional seguiu sem patrocínios públicos. Surgiu, então, a figura do financiamento. As empresas pegavam financiamentos. Mas o Ministério do Planejamento foi contra, com base na experiência da Embrafilme, na qual muita gente pegou dinheiro e não pagou. Mas o financiamento saiu, porque muitos representantes da classe teatral foram a Brasília e movimentaram forças políticas. O órgão do governo agia como um banco. Havia fiadores, pessoas responsáveis. Os juros eram quase 0%. O próprio órgão era responsável pela cobrança. Foram feitos mais de cem financiamentos e, para surpresa de muita gente, todos pagaram. Quando o financiamento não era pago, o fiador pagava em suaves parcelas.

Norma Lembra que a dívida era paga com a bilheteria? Mas se o espetáculo saísse de cartaz, a dívida era renegociada. Montava-se um outro espetáculo, pagava-se a divida em parcelas mensais. E todo mundo pagou, inclusive eu.

Orlando A dignidade foi resgatada pela categoria. Não havia mais preconceito. O financiamento poderia ser feito para atores conhecidos, ou desconhecidos do grande público. Qualquer tema era aprovado. Não havia mais censura. As peças podiam ter mulheres nuas, ou qualquer tema escolhido como política.

Norma - Teatro de revista.

Miguel – Quando aconteceu isso?

Orlando - Isso aconteceu no período de 1974 a 1985. O que ninguém explica é por que isso não acontece mais.

SérgioEm todos os setores da economia existe esse tipo de financiamento. Se há intenção de incentivar a indústria automobilística, por exemplo, o governo faz isso.

Orlando – Você provavelmente arranja dinheiro emprestado no Banco do Brasil para abrir uma padaria, ou construir um hotel. Mas não consegue para uma produção teatral, ou para publicar um livro. Até hoje não se entende porque não retomaram esses financiamentos.