Vamos desenvolver as áreas de produção e gestão cultural?
Escrita em 12/007/10 por admin
Artigos e ColunasEm abril de 2007 publiquei no site Overmundo o texto ”Vamos educar pessoas para produção cultural?”, que foi publicado também em meio impresso no Guia do Mercado Brasileiro da Música 2008/2009.

Neste texto, minha intenção era provocar as pessoas para que parassem de reclamar que não tínhamos bons produtores, pois soava como aquela reclamação pessimista e destrutiva de que o Brasil nunca ia mudar. O Brasil mudou e o mercado da produção cultural mudou também.

Quem desejar começar a atuar no campo da produção cultural ou da gestão cultural nos dias de hoje, encontrará um terreno mais favorável do que anos atrás. Vejamos três fatos que fortalecem a minha convicção.


Reconhecimento crescente do mercado


Antigamente, o produtor cultural era muito confundido com o produtor de eventos, pelo fato de atuar também em atividades similares. As atividades de produção executiva podem ser desenvolvidas por ambos profissionais. Contudo, hoje há setores do mercado de cultura e entretenimento que já percebem o valor das competências específicas do produtor cultural. Tatiana Zaccaro, graduada em jornalismo com MBA em Marketing e gerente de negócios da Fagga Eventos, empresa do grupo francês GL-Events, falou na edição do dia 01/09/2009 do Jornal O Globo que “(…) o produtor cultural participa desde a concepção do projeto, passando por contratação de profissionais, captação de recursos, enquadramento em leis de incentivo, controle orçamentário, divulgação, até a montagem de shows, peças, exposições etc. É preciso ter embasamento e conteúdo que o produtor de eventos geralmente não tem. Ele fica responsável mais pela execução e precisa dominar a parte técnica, saber tudo sobre equipamentos e como montá-los”.


Ampliação da oferta de conteúdo


Encontrar livros sobre temas relacionados a produção cultural não é uma tarefa simples. Mas já foi pior. Cresceu muito a oferta de conteúdo.

Se alguém quiser informações diretas sobre a prática da produção cultural, tem pelo menos quatro obras disponíveis: o Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, que tem como organizadores Cristiane Olivieri e Edson Natale, O Avesso da Cena – Notas sobre produção e gestão cultural, de Romulo Avelar, Diário de Produção de Carla Lobo e Aprenda a Organizar um Show, de minha autoria, disponível de forma livre na internet.

Mas se quiser encontrar literatura das mais variadas disciplinas que constituem o campo da produção cultural, irá encontrar uma oferta maior de títulos. Economia da Cultura: ideias e vivências, organizado por Ana Carla Fonseca Reis e Kátia de Marco, Cadeia Produtiva da Economia da Música e Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval, ambos organizados por Luis Carlos Prestes Filho, Políticas Culturais no Brasil: História e Contemporaneidade de Lia Calabre, O Poder da Cultura de Leonardo Brant, Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima de Célio Turino, Gestão Cultural de Maria Helena Cunha, Economia da Cultura organizado por Isabel Cribari, Ética e Cultura organizado por Danilo Santos de Miranda e Cultura e Desenvolvimento em um quadro de desigualdades de Marta Porto são alguns exemplos.

Além dos livros, há também a Revista Observatório Itaú Cultural e Continuum, ambas revistas do Instituto Itaú Cultural, disponíveis no site www.itaucultural.org.br.

Além dos livros e revistas eletrônicas, há os centros de pesquisa e sites especializados. O Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT ) da Universidade Federal da Bahia promove todos os anos o Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (ENECULT), onde são apresentados muitos artigos e pesquisas. No site Overmundo (www.overmundo.com.br) você encontra uma ampla variedade de conteúdos representativos da diversidade cultural brasileira. Na página de produção cultural do SEBRAE (http://www.sebrae.com.br/setor/cultura-e-entretenimento/gestao-empresarial/mercado/producao-cultural) você encontra informações sobre o setor


Preocupação com organização profissional


No mundo a preocupação com organização profissional é recente. Na década de 70 surgiram os primeiros cursos com formação voltada para produção cultural. Na Inglaterra foi criado o curso de Arts Administration e nos Estados Unidos o curso de Arts Management. No Brasil é bem mais recente. Em 1995 iniciou na Universidade Federal Fluminense (RJ) o primeiro curso de graduação em produção cultural e em 1996 a Universidade Federal da Bahia iniciou sua primeira turma.

Mesmo sendo recente, esta preocupação tem crescido e dado origem a importantes iniciativas. A Associação Brasileira de Gestão Cultural (ABGC) é um bom exemplo disso. Fundada em 2005 com sede no Rio de Janeiro, trabalha para dinamizar quatro segmentos do que chama de “cadeia de profissionalização dos setores culturais”: formação profissional, formalização da profissão, formação do conhecimento e formação de mercado. Em convênio com a Universidade Cândido Mendes (UCAM) oferece cursos de extensão e pós-graduação voltados à formação profissional do produtor e do gestor em diversos segmentos culturais


Dá para fazer mais?


Sim. Na minha opinião, podemos avançar também nestas direções:


   - criação de um código de ética para as novas profissões de produtor e gestor cultural;
   - produção de conteúdo didático para estímulo da atividade de produtor cultural no ensino fundamental, médio e superior;
   - criação de mais cursos livres, profissionalizantes, de ensino médio e nível superior;
   - criação de cursos de ensino à distância, públicos e privados;
   - articular a inserção organizada dos profissionais de produção e gestão cultural nas cadeias produtivas das indústrias criativas;
   - conscientização de gestores públicos e privados para que cargos de produção e gestão cultural ou atividades de prestação destes serviços sejam oferecidas para pessoas com competências comprovadas, preferencialmente com formação afim;
   - desenvolvimento de metodologias com o SEBRAE para dar suporte aos profissionais de produção ou gestão cultural que desejem atuar como empreendedores;
   - elaboração de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da profissão do produtor cultural e do gestor cultural.

Há muito mais trabalho a ser feito além dos exemplos e sugestões apresentados. Todos estão convidados a contribuir.

Vamos desenvolver as áreas de produção e gestão cultural?



Alê Barreto tem 38 anos. É administrador, produtor cultural independente, palestrante e gestor de conteúdo também dos blogs Alê Barreto, onde divulga seu processo de trabalho, e Encantadoras Mulheres, um blog que tem por objetivo reciclar valores machistas.)

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