Da importância das coisas
Escrita em 12/007/10 por admin
Artigos e ColunasO que não produz resultados econômicos não tem importância. Esta é a lógica do pensamento capitalista e dos nossos planejadores públicos - gente formada em escolas de Administração e Economia -  que vive preocupada com inflação, metas, superávits, dígitos, taxas, investimentos e coisas que-tais. Na cabeça deles, cada real investido tem que produzir um resultado mensurável, seja em empregos, renda ou mesmo em benefícios indiretos, num determinado período de tempo. Suas decisões baseiam-se sempre, cartesianamente, no princípio de que 2+2 sempre é igual a 4. Mas há controvérsias…

Surge daí uma questão intrigante e de importância estratégica. Quanto a cultura contribui com o PIB nacional? O Produto Interno Bruto é um indicador de toda a riqueza produzida no país. Se a cultura conseguir provar que contribui de forma importante para a construção desta riqueza, provavelmente os planejadores olharão para ela com outros olhos. Não se discute que a cultura é um dos fatores mais críticos para o desenvolvimento e para a melhoria da qualidade de vida da população. Isso até os burocratas são capazes de intuir. Só que esta avaliação é subjetiva, não numérica.  E, sem os números, a cultura entra sempre no final da lista das prioridades.

Descobrir a participação econômica da cultura no PIB, com números científicos e incontestáveis, entretanto, é um desafio e tanto.  Não pela dificuldade da conta. O IBGE, os  profissionais de estatística  e muitos outros órgão e instituições brasileiras dominam com maestria esta tecnologia para a apuração de indicadores econômicos. A pergunta que não quer calar permanece “O quanto contribuímos para a riqueza do país?”.

No caso da cultura o problema é saber o que contar. É conceitual!

Entender o que é cultura em toda a sua abrangência é talvez uma das tarefas mais complexas com que a humanidade já se deparou.  Várias ciências estudam o tema e a antropologia, por exemplo, já conhece mais de 200 significados para a palavra. Pode-se partir do axioma: “Tudo que não é natural, é cultural”- que leva à conclusão de que a cultura está em tudo o que o ser humano faz, e que  é ela que torna o animal uma espécie única, humana.

Como a cultura está em quase tudo que nos diz respeito, de muitas e variadas formas, contabilizar sua participação em cada atividade econômica é coisa de louco. Em todo produto industrializado ou serviço prestado, existe uma parcela cultural – que em geral é a parte mais lucrativa do todo. Alem do que, o valor que as pessoas atribuem às mercadorias, sua disposição de comprá-las e até mesmo seus desejos sofrem forte influencia das crenças e dos  valores de cada pessoa, imateriais e simbólicos. Tudo é muito cultural.

Essa onipresença da cultura na vida social dificulta sua compreensão pelo senso comum e faz com que os criadores de políticas públicas prefiram frentes mais objetivas e visíveis para sua atuação.

O povo odeia “a”cultura, que percebe como algo difícil, hermético e desinteressante. O povo mantém suas tradições, se diverte, ouve música, consome produtos culturais, enfim, sua vida é imersa em cultura. E ele adora isso! Mas o que ele compreende como “cultura”, é um concerto de música erudita no museu – que é um lugar de guardar coisas velhas - num ambiente de formalismo digno da Academia Brasileira de Letras. Ora, isso está sempre muito distante de seu dia-a-dia.

O desafio de mensurar valores tão fluidos e imateriais é internacional. Ainda nos anos 80 do século passado,  criou-se até uma disciplina chamada Economia da Cultura, que integra currículos e propostas de teses de doutorado. Mais recentemente, inventou-se a Economia Criativa, buscando entender a participação da criatividade na economia como um todo.

Sabe-se que a França e Espanha tem suas economias totalmente atreladas ao seu capital cultural – tanto nas exportações, quanto nos turistas que importam – mas como medir isso?

A “indústria do entretenimento” está entre as maiores dos Estados Unidos, país que fez de seus produtos culturais (audiovisuais, principalmente) a ponta de lança da expansão de todo o seu parque industrial, tornando-o o maior exportador do mundo de todo o tipo de produto que representasse o american way of life.

O fato é que, estando em Roma, temos que ser como os romanos. No capitalismo global, precisamos mostrar que valemos a pena.

Temos que arranjar um jeito de calcular isso!



Miguel Gomes é advogado, produtor cultural e consultor. Presidente do Clube da Cultura, professor do Departamento de Comunicação da Puc-RJ e Publisher de Fazer e Vender Cultura.

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