Muito além do mercado
Escrita em 13/007/10 por admin
Artigos e ColunasMERCADO, MERCADO, MERCADO!
Afinal de contas, o que forma essa entidade  que assombra qualquer empresário e, em especial, o empresário de cultura? Que entidade é essa capaz de determinar a receita de um projeto, a bilheteria de um show, a lotação de um teatro, a visitação de um museu, a obtenção de patrocínio e a opinião do público? Pois bem. Entende-se mercado como o ESPAÇO onde se dão as relações de troca onde, de um lado, alguém está oferecendo algo; e, de outro, alguém quer adquirir o que está sendo oferecido. Em outras palavras, alguém faz um filme e o leva à exibição; na outra ponta, alguém quer assisti-lo, certo? Do ponto de vista estrito, sim. No entanto, entre essas duas pontas há uma infinidade de variáveis interdependentes e de natureza diferente que tornam o processo de confecção do produto cultural uma caminhada bastante complexa. A forma como o produtor cultural lida com essas variáveis é um dos fatores que determina o sucesso, ou fracasso de sua iniciativa.

Há projetos mais ou menos viáveis mercadologicamente. E há aqueles cuja relevância transcende essa lógica, em função das contribuições que possam trazer à sociedade. Mas a realidade é que todos os projetos, em maior ou menor grau, acabam sujeitos às condições do mercado. Não deveria ser assim, mas é. Quanto mais o produtor tiver essa consciência e se instrumentar para lidar com isso, mais chances terá para usar tal lógica a favor do seu projeto.

Não importa o quão relevante seja uma obra, ou produto cultural. Ela deverá ser envolvida em um invólucro que traduza suas qualidades intrínsecas e expresse isso de maneira clara e convidativa.

Perceber o principal ATRIBUTO DE VALOR do projeto ou obra (ver na edição anterior) e, na sequência:

- TANGIBILIZAR esse atributo, de modo que possa ele possa ser identificado em todos os canais possíveis relacionados ao projeto (identidade visual, slogans, design gráfico, vestuário ou figurino, cenografia ou decoração).

- Definir o PÚBLICO e avaliar se o atributo principal do projeto está claramente expresso e afinado com ele.

- Entender que, além da plateia, também formam um segmento importante de PÚBLICO DIFUSOR E FACILITADOR, os profissionais dos demais segmentos de atividade, como artistas e outros produtores, produtores técnicos, autoridades e representantes setoriais, jornalistas e críticos, pesquisadores e docentes.

- Analisar constantemente o CENÁRIO e avaliar seu projeto dentro do contexto a que pertence, estabelecendo comparações, procurando identificar oportunidades e formando parcerias. É uma tendência crescente quando se fala de patrocínio, que os projetos incentivados tragam uma contrapartida social (embora a arte e a cultura de per si a tragam).

- Entender a EFEMERIDADE dos novos tempos e procurar observar os sinais que mostram se o projeto está resistindo a isso e, se não estiver, avaliar se não se trata de renovar o seu invólucro. E, no sentido inverso, perceber se tudo deve permanecer exatamente como está, pois a contraparte da volatilidade dos dias de hoje é justamente a necessidade de PERMANÊNCIA.

- Ter clareza de que o VERDADEIRO CONCORRENTE não é outro produto cultural similar, mas uma enchente causada pela chuva, uma final de Copa do Mundo, ou um feriadão em que todos viajam. E que, em vista disso, é indispensável buscar INTERAGIR com o seu meio, participando de iniciativas coletivas, que tragam benefícios para todas as partes.

- Considerar que RECURSO é qualquer coisa que contribui para a realização do projeto.

Estas são apenas algumas das complexas variáveis com as quais o produtor deve lidar.

Também é saudável perguntar pelas razões não tão óbvias do resultado de certas iniciativas. Será que a FLIP não possui tanto encantamento e poder de atração sobre escritores do mundo todo por estar numa cidade como Paraty? A Biscoito Fino se diferenciaria tanto das outras gravadoras e selos se não tivesse adotado um padrão de embalagem e de
venda característicos e um acesso muito bom aos artistas? O boom da Lapa e adjacências seria o mesmo se os produtores locais não tivessem se unido associativamente e negociado com o Poder Público?

Ainda para além do mercado, lembro que isolar-se não é boa política para nenhum produtor. É importante interagir com o seu meio, contribuindo para fortalecê-lo. Só assim os pleitos do setor serão atendidos. Só assim o mercado se potencializará e se tornará menos dependente de patrocínio. Só assim a sociedade reconhecerá na cultura um ativo fundamental para o desenvolvimento. Só assim as condições necessárias para a realização de seus projetos existirão.

E, então, dos grandes concertos às exposições de arte, que venha o público!


Áurea Bicalho Guimarães
é produtora cultural. Graduada em Letras e pós-graduada em Marketing, foi Vice-Presidente do Instituto Cultural Cidade Viva. Participou de projetos como o Programa Empreendedor Cultural do Sebrae-SP, Eu Vivo Cinema Pan Americano e Circuito Copa Gourmet, de atividades no Quadrilátero do Charme de Ipanema, produziu shows no eixo Rio - São Paulo. Sócia da A.Guimarães Produções, é diretora do Clube da Cultura e ajuda a produzir esta revista.

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