O PIB da Cultura
Escrita em 12/007/10 por admin
Economia da CulturaQual é a participação da cultura no PIB (Produtor Interno Bruto) brasileiro? O que se considera cultura na hora de se fazer tal conta? Perguntas de importância fundamental para o desenvolvimento do setor, mas com respostas sem o rigor formal necessário para que isso aconteça. Enquanto setores como a indústria e a agropecuária podem ter seu crescimento mensurado de maneira objetiva, a cultura esbarra em entraves. Entre eles estão a informalidade de parte do setor e a indecisão no que diz respeito ao que considerar parte integrante da esfera cultural, território amplo, que abraça de áreas informais a artesanais, como as rendeiras do Nordeste do país, a outras de tecnologia de ponta, como o desenvolvimento de programas de computador.

Para se ter uma ideia da força do setor para a economia brasileira, basta recorrer a declarações recentes do ministro da Cultura, Juca Ferreira, feitas em abril de 2010. De acordo com ele, pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em convênio com o próprio ministério, apontariam que a cultura representa 5% da mão de obra empregada formalmente no País e quase 6% do PIB nacional. Os parâmetros levados em conta para tal medição, no entanto, geram confusão, com variação brusca dos valores divulgados de acordo com é considerado cultura em tais levantamentos.

A única pesquisa formal sobre o PIB da Cultura


Uma pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro entre 1985 e 1995 e publicada em 1998 pelo Ministério da Cultura é considerada, contudo, até hoje, o único trabalho consistente dedicado a mensurar a representatividade do setor cultural no PIB nacional, como aponta o economista e pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho. “Ela foi encomendada pelo Ministério da Cultura na ocasião e representa um marco, por, pela primeira vez, se dedicar a analisar o tema ‘economia da cultura’”. A pesquisa dava conta de que a chamada ‘economia criativa’ respondia somente por 1% do PIB brasileiro, com Educação e Saúde respondendo por 2% e 3%. O trabalho, contudo, não abrangia todos os setores da economia criativa — deixava de fora áreas como a televisão, a de softwares, de games, de artesanato e de publicidade e propaganda. Se televisão e todo o resto que ficou de fora fossem acrescentados, esse 1% seria elevado para um número mais expressivo. Em 1998, época em que a pesquisa foi feita, a economia criativa empregava mais do que as indústrias eletroeletrônica e automobilística, setores clássicos da economia tradicional. Para cada R$ 1 milhão aplicado na economia criativa são gerados 160 empregos diretos. É preciso bem mais do que isso para gerar empregos em indústrias que têm um grau de sofisticação tecnológica muito maior.

Necessidade da medição real do PIB da Cultura


Prestes Filho observa que um estudo intitulado ‘Cultura e Números’, lançado ano passado, levanta dados sobre o impacto das atividades ligadas à cultura no país. A publicação do Minc, contudo, não avalia o real peso da cultura na economia brasileira. “Falta vontade política de realizar esse estudo do PIB da cultura. Não há impedimento formal e temos profissionais mais do que preparados nas universidades para se dedicarem a tal estudo em curto espaço de tempo”, avalia. Ele destaca a gravidade de o Brasil não ter conduzido, nos últimos três governos, estudos para mensurar o quanto de riqueza a cultura gera para o país. “Quando se estuda melhor a contribuição da cultura para o PIB se tem elementos para incentivar tal setor a fazer com que dispute espaço com mercados que dominam a área cultural aqui, como os Estados Unidos”. A indústria cultural americana, de práticas agressivas, domina prateleiras de livrarias, lojas de CDs e programação de cinemas e TVs por assinatura, sem que o governo brasileiro se dedique a estudar a vocação de seus próprios produtos culturais, sem que se enxergue a cultura como produto. “É fundamental estudar a economia da cultura, pois na balança comercial brasileira ela sequer aparece. Não exportamos realmente livros, nem filmes, tampouco a música brasileira, tão aclamada como produto de aceitação mundial”, dispara, para em seguida, completar o raciocínio: “Da mesma forma que vendemos café, açúcar, temos que vender cultura. E saber quanto ela gera de valor é fundamental”.

Telefonia e atividades de lazer entram na conta


Segundo dados divulgados pelo Sistema de Informações e Indicadores Culturais (IBGE/ Ministério da Cultura, 2006), o setor cultural e criativo respondia em 2003 por 5,7% dos empregos formais; 6,2% do número de empresas e 4,4% das despesas médias das famílias brasileiras. Divulgado em 2006, o trabalho do IBGE e do Minc mostra que as empresas culturais são responsáveis por 5% dos postos de trabalho da indústria do país, com salário médio de 5,6 mínimos (para 4,6 de toda a indústria). Em relação aos serviços, os números são ainda mais expressivos: 9% do total de empregos e 5,9 mínimos de salário médio (para 3,2 de todos os serviços). Números do Global Entertainment & Media Outlook 2006-2010, da Price Waterhouse Coopers, mostram que a ‘economia da cultura’ no Brasil passou de US$ 11,5 bilhões em 2001 para US$ 14,6 em 2005. De acordo com o estudo, o setor atingirá a marca de US$ 21,9 bi em 2010.

Na pesquisa do IBGE foram consideradas atividades ligadas ao segmento da cultura desde fotografia, publicidade, TV, rádio, edição e impressão, telefonia e comércio de livros e jornais, a atividades de pesquisa e outras ligadas a lazer e diversão.

Medição formal e eficaz do PIB da Cultura na berlinda


Embora o governo prometa avanços no que diz respeito à medição formal de quanto a cultura representa para o PIB brasileiro, avanços noticiados para tal fim devem ser encarados com cautela. Ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, o professor da Universidade Federal da Bahia, Paulo Miguez, deu seu testemunho sobre o tema em fevereiro do corrente ano. “A medição de uma área como a Cultura, com o rigor necessário, é bastante complicada”, avaliou. “O grande problema está no caráter individual e na informalidade em larga escala da atividade. Enquanto não se chegar a uma metodologia, qualquer número sobre o assunto é uma mera especulação”, afirmou, estimando um prazo de cinco anos para que o país passe a aferir o real PIB do setor cultural.

A força do Rio de Janeiro para o PIB da cultura do País


Realizador de estudo sobre o impacto do Carnaval carioca na economia do estado, o pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho dedicou-se ainda a vasculhar, entre 1999 e 2000, o impacto da cultura para o estado do Rio de Janeiro. Os resultados apontaram participação da cultura em 3,8% do PIB do estado. “Apesar de fazer o maior Carnaval, o maior Réveillon e abrigar a maior cidade cenográfica (o Projac, da Rede Globo), o Rio sofre com a falta de investimentos e de políticas públicas para garantir o desenvolvimento em diversos segmentos da chamada indústria cultural”, aponta.

Crescimento do PIB brasileiro


Junho de 2010 chegou superlativo no que diz respeito a índices econômicos no Brasil: nosso país teve o segundo maior crescimento trimestral dentre os países integrantes do grupo de nações emergentes – os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro saltou 9% nos três primeiros meses do corrente ano, na comparação com igual período do ano anterior, patamar semelhante ao da Índia (8,6%) e inferior somente ao da China, de 11,9%.  O levantamento foi divulgado pelo IBGE e revela a maior alta desde 1995. O Produto Interno Bruto é o principal medidor do crescimento econômico de uma região, seja ela uma cidade, estado, país ou grupo de nações. Sua medida é feita a partir da soma do valor de todos os serviços e bens produzidos na região escolhida em um período determinado.


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