. .

Áurea: Qual é a maior dificuldade?

Léo: Eu acho que a maior dificuldade é acesso a crédito. Ainda. Para abrir o Odisséia, eu consegui através do Sebrae, fui para a Caixa Econômica e consegui um empréstimo. Mas ele representou um quinto do total investido. A Caixa Econômica e o Banco do Brasil têm suas regras conservadoras lá e não vão liberar muito para você, que é microempresa. A gente teve dificuldade com isso. BNDES não aceita microempresa. E os programas de incentivo dos governos Federal e Estadual, normalmente, não contemplam esse tipo de empreendimento. Ponto de cultura é só para ONG ou Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Os editais do estado são para festivais, mas casa de música não pode. E é equivocado isso.

Miguel: Seu negócio ficou grande, deixou de ser artesanal. Até agora, você é um cara que está ali no negócio, dando a tua cara, o teu jeito. Crescendo mais, você começa a perder isso...

Léo: Eu nunca sonhei em ter rede de franquia. Imagina 50 franquias no Brasil, de Campo Grande a Recife, viajando toda hora. Eu gosto de ficar aqui no Rio, circular por aqui. Ir para pesquisar, tudo bem. Mas ficar nessa loucura, não.

odi

Miguel: Mas, do ponto de vista de plano estratégico, uma coisa é estar aqui tomando conta das casas; outra é começar um processo de expansão e ter quarenta casas. Para tocar quarenta, tem de profissionalizar. Você tem interesse nisso, ou tá bom assim?

Léo: Com dez casas já tem de profissionalizar. Mas essa vida social me interessa muito mais do que tentar ficar rico tendo dezenas de negócios. Não é o meu objetivo, nunca foi. Para trabalhar com arte, você não deve esperar muito. Ter tornado o negócio sustentável já foi uma vitória. Mas você tem de estar sempre atento ao mercado. A gente já não investiu todos os ovos na mesma cesta. Se um negócio vai mal aqui, o outro compensa. Podemos fechar um e abrir outro mais para frente. Mas a única coisa que eu abriria é o Garage, que tem de reabrir por uma questão histórica. Porque sabemos que não vai ser lucrativo – lá a entrada tem de ser R$ 5 e cerveja a R$ 1. É produção de cultura, é uma história da cidade que está ali perdida, parada. Não é só dinheiro.

Rodrigo: Você disse que não é mais artesanal o seu negócio. Até que ponto ser artesanal foi importante para o sucesso?

Léo: As pessoas identificaram que não eram projetos de marketing, luxuosos, riquíssimos. Os universitários se identificaram com isso. Chegavam lá e: “Pô, esse lugar aqui tem a ver comigo”. Então o artesanal, nesse sentido, foi ótimo! É como se fosse a minha casa mesmo. A Casa da Matriz sempre foi isso, a casinha dos pais que viajaram no fim de semana. Você ia para lá fazer a festa, com vários cômodos, sofazinho e “vamos dançar na sala”. Era essa a história.

pista

Rodrigo: E como você resolve isso hoje, com um negócio que não é mais artesanal?

Léo: Essa coisa de estar no lugar... O DJ faz hoje faz muito a figura do anfitrião. Se você vai lá na Casa da Matriz no sábado, na Paradiso, vai ver sempre os mesmo caras. Vai ver o Edinho tocar. Não vai lá me ver. Nem tenho esse interesse.
Miguel: De ser a estrela da noite.

Léo: Não. O DJ, ou a banda que está no palco é que são. Você vai lá para fiscalizar se o serviço está bom, se o segurança está educado, se tem muita fila, se o banheiro está limpo.

Milton: Essa faixa etária está muito presente nas redes sociais e você falou numa entrevista que seu negócio é de entretenimento participativo, mais interativo. Isso já é coisa dessa geração, que quer interagir?

Léo: A gente tem visto cada vez mais novos DJs e novos produtores surgindo. Muito mais do que antes. Isso é bem legal. Pela quantidade de projetos que chega... Então, a gente inverteu um pouco essa busca de inventar festas, contratar o DJ, definir o perfil, o evento. Era um esforço contínuo. Agora, não. Os projetos chegam. Como a gente virou um pouco referência e está sempre com a porta aberta para conversar com o cara novinho que senta aqui, quer fazer a festa e não sabe muito bem como. Às vezes, esse cara é lá do DCE da faculdade, então, tem de dar atenção a ele.
Milton: Festa online você ainda não fez.

Léo: Festa online? Não. Ainda é presencial.

Áurea: E ainda tem barulho.

Léo: Não tenho mais esse problema porque a gente fez isolamento acústico.

Miguel: Isso custa caro.

Léo: É caro. O investimento não é barato. E a gente se dá bem com todos os vizinhos aqui. Fez um monitoramento no começo, perguntou se tinha algum problema, e, agora, está tudo certo. Eles gostaram muito da nossa presença porque a gente revitalizou essa rua de verdade.

Milton: Com tanta noite pra administrar, você não tem medo de chegar aos cinquenta anos de idade e começar a reclamar – como aconteceu com “donos da noite” do passado – que não cuidaram da saúde, não curtiram a família, etc...

Léo: Eu adoro ver show. O que me deixa feliz é ir lá e ver os shows.

Rodrigo: Você vai toda noite a uma casa sua?

Léo: Toda noite, não. Durante a semana, deu 1h eu vou embora. E vou a outros bares também.