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Léo: Por conta da festa chamada “Maldita” que acontece toda segunda-feira.

Miguel: A festa, você também inventou esse troço?
Léo: Não, foram os dois DJs que são os donos dela. O lema deles é: “Comece a semana se acabando”. É ótimo. E aí fizemos a Drinkeria que, depois, o choque de ordem, na época do Miguel, que não teve nada a ver com isso obviamente. Esse foi o novo processo de revitalização naquela região. Depois que a gente abriu, abriu o Odorico, abriu aquele Taxi Wraps, todos os botequins em frente começaram a abrir de madrugada – eles fechavam às 23h. Criou uma economia local ali importantíssima. Era escuro, abandonado, tinha população de rua, sujo. Aí, a gente abriu o Cinematheque, acreditando que a região ia melhorar bastante.

Miguel: Quando você pegou o Garage ele já era “o” Garage.
Léo: Claro. Foi, durante vinte anos, a casa do underground mais importante do Rio. Bandas gringas tocaram lá. Peguei, reformei e estou tentando legalizar há mais de um ano. Porque era residencial o imóvel. Você vê: funcionou durante 20 anos assim. E eu estou tentando fazer a transformação disso para comercial para, aí sim, tirar o alvará. Aí, perderam o processo na inspetoria...
Miguel: Tem mais além dessas casas?

Léo: Isso foi em 2006. Em 2007 nós abrimos mais quatro lugares: a Pista 3, na São João Batista, que é parecida com a Casa da Matriz, só para DJs; o Cinematheque também foi em 2007; o Bar da Ladeira na Lapa, ao lado do Semente; e a Choperia Brazooka. Tem o Boteco Salvação, que foi aberto em 2008, e tem o albergue aqui do lado que foi aberto em 2009.

Miguel: Albergue? É um bar também?

Léo: É uma hospedaria que a gente usa para trazer bandas de outros estados que se hospedam aqui. No verão, vem muito gringo.

Miguel: A receita que você adota é sempre essa? Coisas de baixo investimento, simples - afinal você não fez um hotel, fez um albergue, que requer um investimento muito menor – e aproveitando uma oportunidade que surge? E sempre para o segmento jovem?

Léo: É, jovem, jovem adulto. Jovem vai até cinquenta anos. Então, não tem essa. A gente tem lá o Cinematheque, que faz jazz às sextas, às 19h. Depois das 23h, troca. As pessoas vão embora, chega uma molecada para a festa. Mas eu acho que a receita é essa: gaste pouco, procure pontos comerciais não muito valorizados – se tiver que pagar uma luva complica -, uma casa que seja fechada, que seja comercial e não tenha atividade, aluga aquilo e crie você o seu ponto comercial. O seu retorno vai vir, obviamente, muito mais rápido. A Casa da Matriz, aqui, estava fechada, era uma produtora de cinema quando a gente alugou e custou R$ 25 mil (em 2000).

Rodrigo: Faz parte dessa fórmula a complementaridade das casas? Você abriu a Taberna do Juca, um bar, em frente ao Odisséia, o Boteco aqui ao lado da Matriz...

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Léo: Tem, tem. A gente foi percebendo que a dinâmica das pessoas era ficar no pé sujo da esquina. Então vamos abrir um bar para a galera fazer o esquenta com a gente. Mas não é uma coisa monopolista, quero mais é que abram mais coisas por aqui. A São João Batista tem várias casas.

Milton: De repente, você abre quatro casas. Isso parte de uma confiança de que as coisas estão dando certo, ou uma percepção de oportunidade?

Léo: Primeiro, eu entendi que a escala era importante. Para negociar com o fornecedor, para fazer uma propaganda conjunta diluindo os custos. E acho que rolava uma realimentação do público. Quando eu abria uma casa nova, era citado que se tratava da mesma galera da Casa da Matriz, então, voltava a crescer aqui também. E isso acabou mantendo e renovando automaticamente de uma forma impressionante. Tanto é que você vem aqui quinta-feira e o público-alvo vai de 18 a 21 anos na Matriz. Quinhentas pessoas vêm aqui. Uma molecada que você não acredita: “ficam” com outros três na mesma noite, sabe aquele negócio..?! Sábado, é um pessoal mais velho. Sexta também. Então, começa a acontecer essa coisa. Vira comportamento de geração. O Multishow fez um programa com três meninas que não saíam daqui. O tempo todo ela citavam o lugar: “eu estou aqui, vamos não sei para onde, vamos para a Pista 3”. Quer dizer, é uma coisa que, realmente, foi representativa para uma geração.

Miguel: Isso aconteceu espontaneamente. Você não fez...

Léo: Nada.

Miguel: Mas você não toma conta de cada festa. Alguém faz a festa dentro da sua casa. É isso?

Léo: Tem dois modelos, na verdade. Você pode criar o perfil da festa e chamar os DJs ou você pode...

Miguel: Você costuma fazer isso? Estou querendo fazer uma festa para a garotada de 18 a 21 anos. Vou chamar o Zezinho que é um bom DJ...

Léo: Faço. É mais lucrativo criar a festa. A festa é sua, você combina um fixo com o DJ e pronto. Se você faz a parceria, vai gastar mais para ter uma festa. Porque o cara vai ter toda estrutura dele de divulgação. Mas você tem de trabalhar com os dois modelos. Não dá para criar tudo.

Milton: Você criou alguma parceria econômica âncora? Com fornecedores...

Léo: Claro, tem umas empresas que atuam nesse mercado de alimentos, bebidas e tabaco. Para a noite, eles dão algum apoio financeiro. Normalmente, você faz com exclusividade com uma cervejaria, por três anos ou quatro.

Miguel: Para cada casa.

Léo: Para cada casa. O cara pergunta: “Qual é o teu volume mensal médio? Tanto? Então vou fazer uma projeção de três anos aqui, te adianto ‘x’ de grana e você compra só de mim”. E assim vai. Ajuda no momento em que você está abrindo, fazendo uma obra, precisando investir.