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Léo: Depois de um ano lá fazendo, eu decidi que tinha de ter a casa de novo, em outro lugar. Aí, a gente veio procurar e achou a casa do endereço atual. Então, a gente continuou com a produtora de eventos e já tinha a casa de novo.

Milton: Essa escolha por Botafogo foi porque já tinha dado para perceber que o ponto era esse?

Léo: É, na verdade, tinha essa oportunidade da casa da família para usar. Mas eu acho que Ipanema, Leblon, Gávea são muito sofisticados e exigem um investimento maior, as pessoas querem outro serviço, um outro padrão de luxo e comportamento. Não eram os lugares ideais para abrir esse tipo de empreendimento. Acho que Botafogo, o lado B da Zona Sul, tinha tudo a ver com isso. Esses casarões, essas casas disponíveis aqui para locação, ajudaram nesse processo. Acho que a Casa da Matriz deu início a esse processo de revitalização em que ninguém acreditava.

Miguel: E você sempre procurava investidores para essas coisas que você fazia. Ou você já tinha desistido e estava investindo sozinho?

Léo: Era caixa próprio. Sempre foi. Nunca teve grandes investidores. Depois, a gente começou a ter outros pequenos sócios participando. Mas, basicamente, foi na cara e na coragem.

Milton: É capital de risco mesmo.

Léo: Capital de risco... Na verdade, capital de giro do próprio negócio que você usa para abrir o próximo. Aperta aqui e ali, fala com o fornecedor para dar um prazo maior porque vai comprar o estoque inicial da próxima casa.

Miguel: Isso aí significa risco mesmo. Porque, se uma não dá certo... Já teve alguma que não deu certo?

Léo: Já, já teve, já teve.

Miguel: E você conseguiu sair rápido dela ou tomou uma cacetada pesada?

Léo: Não, não foi pesado. Nossos empreendimentos não exigem um investimento inicial muito alto. Quer dizer, isso até o Teatro Odisséia aparecer. Cresceu um pouco esse orçamento. Mas continuando então ano a ano para a gente entender. Matriz, então, 2000; esse empreendimento que deu errado em 2002, que era um bar com DJ também aqui em Botafogo, aqui na (Rua) Visconde de Caravelas. A gente não fez um isolamento acústico legal e tal, os vizinhos começaram a reclamar, meio que a gente desistiu assim, não quis brigar. Acho que eles tinham razão, não era um lugar para ter este tipo de atividade. Aí eu falei: “Bom, se é assim, vou para um lugar onde não vou ter problema de vizinhança. Vou para a Lapa”. Escolhi ir para Lapa também porque tinha uma oferta de imóveis muito grande, era um espaço sempre ligado a cultura...

Miguel: Mas ainda não estava bombada a Lapa. Foi no início...

Léo: Não. Quando eu aluguei o imóvel era 2003. Nem o Circo (Voador) tinha reaberto ainda. Só tinha Rio Scenarium e Carioca da Gema.

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Léo: A gente queria ter um palco para música ao vivo porque estava muito caro fazer os shows lá no Cine Íris. Era o maior monta-desmonta. A casa não tinha estrutura para isso. Então, tinha que montar o som na noite anterior, desmontar na manhã seguinte... Imagina, exausto, às nove da manhã! O Teatro Odisséia surgiu dessa necessidade de a gente ter um palco para música ao vivo com um custo menor. A gente pensou que valeria a pena e realmente deu certo.

Miguel: Aí teve o Odisséia...

Léo: Matriz e o Odisséia. E a produtora fazendo a Loud! ainda no Cine Íris! Então você tinha pelo menos um sábado com três coisas rolando ao mesmo tempo.

Áurea: A sua administração é de dia, no horário comercial.

Léo: É, horário comercial. E tem uma produtora montada também para fazer a programação de todas essas casas e a comunicação. Tem esse guia de programação de todas as casas, o portal, mailing e por aí vai.

Miguel: Bom, aí, você tava com a Casa da Matriz, o Cine Íris e o Odisséia. E aí?

Léo: Aí, que tinha uma casa para alugar em frente ao Odisséia (risos). Com uma plaquinha de “aluga-se”. A Lapa estava no momento embrionário dessa revitalização e eu falei: “Tudo isso aqui vai valorizar horrores”. E eu bradei naquela época: “Eu não vou descansar enquanto houver uma oficina mecânica na Lapa!” (risos). E foi verdade, né? Não tem mais nenhuma quase, agora. Estão fechando todas e elas estão virando bares. Então, eu fui lá e aluguei essa casa em frente e chamei o Juca, lá do Serafim, em Laranjeiras, para ser sócio. A gente abriu um boteco ali. Virou a Taberna do Juca. Deu certo também, mas, um ano depois, eu vendi a minha parte para ele. O que eu fiz com esse dinheiro? Comprei o ponto ao lado do Odisséia, que, hoje, é a Choperia Brazooka. Era uma oficina mecânica caindo aos pedaços. A gente reformou aquilo tudo seguindo as regras do corredor cultural, que até hoje não concedeu o alvará definitivo.

Miguel: Ninguém tem.

Léo: É um absurdo. Mas temos fé. Isso foi em 2006. Só que paralelamente eu tava em um momento no qual queria empreender mesmo... Ah, teve o Cine Lapa também, no mesmo ano. Naquela época chamva-se Casarão Cultural dos Arcos, ao lado do Asa Branca. A gente estava pensando o seguinte: “O Odisséia está fazendo uma coisa mais música brasileira, contemporânea. Eu acho que a gente está precisando de um lugar mais alternativo para não abandonar a nossa origem”. Esse lugar foi esse espaço, que abraçou as festas mais de rock, de eletrônica. É o Cine Lapa. Aí, tem o retorno a Botafogo. Eu sempre andava ali pelos cinemas, saía deles e falava: “Não tem lugar para ir aqui perto. É um absurdo isso. Não é possível. Afinal de contas, é uma área cultural, um pólo de cinema. Tenho que abrir um bar”. Comecei a procurar ponto, ponto, ponto e achei essa lojinha de roupa de uma senhorinha, do lado esquerdo, lá no final, que virou a Drinkeria Maldita. Um bar mais de indie rock, uma trilha sonora legal, sanduíches e drinques especiais.

Rodrigo: Maldita por conta da festa.