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entrevista

Léo: Sozinho nesse caso. É, tinha um amigo que me ajudou. Convidei várias pessoas para mostrar a casa, que era uma clínica médica abandonada que pertencia ao meu avô, aqui na Rua da Matriz. Levei as pessoas lá e falei: “Vamos, gente. Está desocupado, to com a chave, a gente pode ficar aqui mais ou menos um ano, vamos tentar fazer umas exposições, umas peças de teatro”. Um monte de gente falou: ”Não, você está maluco. Quero não. Isso aqui vai dar o maior trabalho, eu tenho que trabalhar, fazer minhas coisas. Você vai perder o seu tempo fazendo isso aí”. Mas esse cara, que era cineasta, topou entrar comigo no começo. Depois ele saiu. Mas, no começo, foi ele. O Márcio. E, no começo, realmente, foi complicado viabilizar tudo economicamente só com ingresso.

Miguel: Você também não tinha capital nessa época...

Léo: Não. Também não.

Miguel: Você saiu da outra sociedade, mas não pegou uma grana.

Léo: Tinha o meu salário de estagiário, né.

Miguel: Pô, com isso só dá pro cara comprar uma corda pra se enforcar.

Léo: Exatamente. Mas fui eu lá, o estagiário. Compramos tinta, nós mesmos pintamos a casa... Eu acho que o pulo do gato foi a gente achar esse nicho de mercado para esse público jovem que estava desassistido naquela época, não tinha nenhum lugar para ir. Não tinha, cara. E as pessoas estavam fazendo festa nos DCEs das faculdades, em apartamento, mas não tinham um destino que pudesse ser um ponto de encontro. Então, assim a gente começou. Los Hermanos tocaram lá quando só tinham fitinha cassete, Autoramas, Marcelinho da Lua, essa galera que estava começando naquela época junto com a gente, que fez parte dessa geração. E faltava a figura desse produtor cultural. Você tinha os músicos e tinha o público, mas não tinha o produtor que fizesse esse meio de campo, que dissesse: “Olha, tenho um espaço aqui, um palco, vamos fazer um negócio?”. E assim foi.

Miguel: Você chamou várias pessoas que não toparam e acabou fazendo a Casa da Matriz sozinho.

Léo: Não, isso foi até engraçado. Eu precisava alugar um som em dado momento. Peguei um telefone na Revista Programa e liguei para o celular do sujeito. Atende um cara na mesma redação.

Miguel: Nisso você tava trabalhando no jornal.

Léo: Tava no JB, no estágio, e atende um outro estagiário e fala: “Pô, alugo o som”. “Você está aonde, cara?”. “Estou aqui na redação do JB”. “Pô, eu também!”. E aí a gente se conheceu assim. É o meu sócio até hoje, que é o Daniel Koslinsky. É um cara que já tinha sistema de som, era DJ. A gente se juntou e fez a casa rolar.

Miguel: Como você conciliava esse negócio de ser estagiário no JB e tocar uma casa noturna? Porque você é um cara super presente, está o tempo todo tomando conta. Já era assim?
Léo: Era muito mais até. Eu não tinha equipe, né. Ficava na portaria e no bar, tudo ao mesmo tempo. Mas era só sexta e sábado, então, era mais simples para poder acumular.

Miguel: Você, quando fez essa Casa da Matriz, lá na Rua da Matriz, era uma empresa já?
Léo: Não. Não tinha empresa. Não tinha alvará. Não tinha nada. Naquela época, o depósito da Antártica aqui em Botafogo vendia em consignação para a gente, cara. Isso não existe mais. Imagina a Ambev vendendo em consignação. “Ambev, eu vou fazer uma festa...” (risos).

Miguel: Nem capital de giro você tinha. Era tudo nessa base.

Léo: Nada, cara.

Léo: Mas então, Miguel, é o que você falou: capital zero, experiência mínima para o negócio, mas uma sensibilidade de observação de mercado por gosto pessoal e vontade de fazer. Então, vou criar uma arte, vou fazer uma filipeta, vou divulgar por aí, vou fazer um release, uma “fotinha” e vamos ver no que vai dar? O risco é pequenininho mesmo. Não tem aluguel, o som é do meu sócio, os DJs são camaradas, só vão ganhar dinheiro se der certo, e assim vai. Um coletivinho que foi caminhando. Isso foi em 99. A Casa da Matriz com sucesso total... e tive que entregar a casa (não tinha contrato, não tinha nada!). Então eu falei: “Bem, tenho que procurar outro lugar. E um lugar diferente”. E, então, eu procurei um lugar que fosse pouco convencional também. Aí, fui para o Cine Íris, na Rua da Carioca.

Áurea: Foi fazer a festa Loud!.

Miguel: Mas aí já era evento. Você não tinha mais casa instituída. Porque essa casa implicava em ter infra-estrutura...

Léo: Não tinha a casa. Mas aí a gente abriu uma empresa de produção de eventos e começou a formalizar a história toda em 99 para fazer essa festa lá no Cine Íris. Que foi um grande sucesso também, né. Reunia mais de mil pessoas, 1,5 mil pessoas por edição. E as pessoas ficavam admiradas com aquilo. Gente que vinha de fora do Rio, gringos que iam lá e falavam: “Isso aqui é Nova York, isso aqui é Londres, isso aqui é internacional, isso aqui é demais, cara”. Três pistas de dança simultâneas: pop rock, indie e drum’n’bass no terraço, ao ar livre, e sempre com shows no primeiro andar, embaixo da tela de cinema. Numa época em que o Circo Voador foi fechado pela Prefeitura e era a principal plataforma de lançamento no Rio de Janeiro. Então, o Rio ficou órfão disso e a gente assumiu essa função, de trazer bandas de outros estados, fazer quem estava começando por aqui.

Miguel: E o seu trato com o Cine Íris como é que era? Você alugava o Íris?

Léo: Alugava por um preço fixo. Foi difícil porque os caras lá eram muito complicados. Um cinema pornô, né?A família toda meio cabreira...

Áurea: Aí, você continuou fazendo as festas Loud!, reabriu a Matriz...

Miguel: Isso foi quanto tempo?