O cara quem é
Escrita em 16/005/10 por miguelgomes
Artigos e ColunasTalvez não se possa afirmar que alguém nasceu para ser produtor cultural, embora os melhores produtores que eu conheça, com certeza, nasceram para isso. Costumamos dizer que há vocação quanto alguém tem os talentos necessários para alguma atividade e interesse por ela. Quanto mais treinar suas habilidades, melhor será seu desempenho. Os talentos - que são características inatas, muitas vezes herdadas, apenas tornam o desenvolvimento de habilidades mais fácil e rápido, potencializando-as. Ainda assim, qualquer um, com maior ou menor dificuldade, pode se tornar hábil em quase tudo quando se propõe a isso e se dedica. O que é decisivo é o interesse.

Não consigo identificar talentos determinantes nos produtores culturais que conheço. Tem gente de todo o tipo. Mas percebo atitudes que todos eles têm: muita motivação e muita energia orientada para realizar “coisas”. Geralmente falam muito, e bem. Têm a auto-estima lá no alto e não tem dúvidas de que são capazes de realizar aquilo que querem. Muitos chegam a ser obstinados. Defendem suas idéias com veemência e, às vezes, se excedem nisso. Sempre têm muitas opiniões sobre tudo. Os interesses são múltiplos, ou melhor, são todos. São ligadaços e informados ou, como se diz atualmente, antenados. São sempre muito comprometidos com o que fazem: a fronteira entre seus projetos e sua vida pessoal não existe.

Costumam dar pitaco em tudo. Têm idéias e sugestões a apresentar em qualquer situação. São muito criativos.  Não com a criatividade emocional e sensorial utilizada pelos artistas, mas com uma criatividade aplicada à resolução de problemas.  A crença de que todo problema é um desafio a ser superado, a coragem para enfrentá-lo e, principalmente, o prazer experimentado neste processo são traços comuns.

Na sua atividade, o produtor acaba por desenvolver habilidades específicas para lidar com gente – matéria prima do seu trabalho – e torna-se um especialista em generalidades. Sabe de tudo um pouco, sem pretender ser expert em nada. Mas acho que isso é uma coisa que se aprende no ofício.  

A dúvida de existir, ou não, vocação para ser produtor cultural se complica quando penso na minha própria história: meu primeiro jogo de bola foi aos doze anos, por insistência dos amigos que nunca tinham me visto em campo, apesar de eu ser o organizador oficial dos campeonatos dos “dentes de leite” há três anos. Minha performance no jogo foi um desastre e desde então desisti de fazer gols e fui fazer festas juninas, quermesses, shows e o que mais me desse na telha. Conheço vários produtores com estórias semelhantes, desde cedo envolvidos naquilo que as avós chamavam de “fazer arte” ou “inventar moda”.

Talvez não seja o caso de pensar na vocação para alguém ser produtor cultural.
Pode ser mais preciso considerar a predestinação.


Miguel Gomes é advogado, produtor cultural e consultor. Presidente do Clube da Cultura, professor do Departamento de Comunicação da Puc-RJ e Publisher de Fazer e Vender Cultura.

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