A moda muda: do comércio à cultura
Escrita em 05/005/10 por FernandoMolinari
Artigos e Colunas
Novas oportunidades para o setor criativo


Não seria um exagero afirmar que existe uma moda antes e uma depois dos anos 1990: nesta década, o Brasil começou a passar por grandes ampliações e transformações de mercado. Com o surgimento de novos produtos como cursos, semanas de moda, feiras, sites, revistas, prêmios, exposições, programas de tevê entre outros, enfatizando os negócios e projetando internacionalmente o design de moda brasileiro e a marca Brasil, o negócio prosperou. Este viés mais comercial dá-se naturalmente, já que a indústria da moda é uma das que mais contribuem para a geração do PIB do país. Desde sempre, o setor teve suas políticas públicas gestados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Moda é uma indústria poderosa!

No processo de revitalização cotidiana do mercado criativo da moda brasileira, em 2004, a UNESCO declarou que “a riqueza cultural do mundo reside na sua diversidade”, e orientou os países a valorizarem suas culturas locais. Cabe a cada governo a responsabilidade na preservação de seus patrimônios materiais e imateriais, e no desenvolvimento de
ações para organizar e dar sustentabilidade aos diferentes setores criativos.

No Brasil, em março de 2009, a Moda foi incluída pela primeira vez – oficialmente - nos debates do Ministério da Cultura. Era o reconhecimento oficial de que a moda não produz só emprego e riqueza. Ela produz valores simbólicos e, por isso, culturais. Em março de 2010, quando o Minc promoveu a II Conferência Nacional de Cultura (II CNC), por meio da Secretaria de Políticas Culturais, quando a situação se concretiza, é que a coisa muda de figura. A Conferência tinha por objetivo juntar os agentes do governo à sociedade civil, e contava com representantes das cinco regiões do país, justamente para descentralizar e incluir todos os estados. O encontro colocou em debate as necessidades e reivindicações de cada segmento e foram instituídos delegados nacionais (representantes regionais) para encaminhamento de resoluções quanto às políticas públicas a serem adotadas para os dez anos seguintes.

Os debates foram realizados por áreas: Dança; Circo; Teatro; Música Erudita; Música Popular; Artes Visuais; Audiovisual; Literatura, Livro e Leitura; Museus; Patrimônio Material; Patrimônio Imaterial; Culturas Indígenas; Culturas Afro-brasileiras e Culturas Populares. E inovaram, incluindo Moda, Design, Artesanato, Arquitetura e Artes Digitais, totalizando 19 setores criativos. Durante uma semana, a Economia Criativa foi pensada sob cinco eixos norteadores:

1   Produção Simbólica e Diversidade Cultural
2   Cultura, Cidade e Cidadania
3   Cultura e Desenvolvimento Sustentável
4   Cultura e Economia Criativa
5   Gestão e Institucionalidade da Cultura

E a Moda estava lá, para discutir o Brasil!

Entre os temas abordados, para a cultura como um todo, reforçou-se a importância de:
§   dar apoio à criação artística e cultural, mapear as diversidades regionais e difundir a cultura no exterior;
§   fortalecer ciclos econômicos e possibilitar o desenvolvimento sustentável, contribuir com a formalização do mercado de trabalho;
§   promover equipamentos culturais (museus, bibliotecas, arquivos);
§   investir no conceito de cidades criativas e da cidade como produção cultural (segundo orientação da UNESCO);
§   considerar as diversidades locais na confecção de programas e no fortalecimento da ação do Estado para dar continuidade às ações implementadas; criar o financiamento da cultura;
§   implantar o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC) para monitoramento e avaliação da gestão e das políticas públicas.

Foram muitas as idéias - registradas no site do Minc -, mas as propostas defendidas e aprovadas pelos delegados na II CNC em Brasília 2010 (Moção 23) para Moda foram:

"   Financiamento de projetos de geração de emprego e renda, promoção de estudos de mapeamento e fomento de processos sustentáveis na moda com reafirmação cultural em grupos/ comunidades por meio de políticas de capacitação, profissionalização e estímulo à produção e à circulação.

"   Promoção da institucionalização da moda no Ministério da Cultura por meio da criação: do Fundo Nacional da Moda, do Comitê da Moda e da Agenda Propositiva de Trabalho com o Minc (ambas do Eixo III – Cultura e Desenvolvimento Sustentável).

O ano de 2010 já é um ano de conquistas históricas, pois também a Moda e o Design passaram a ser incluídos nos editais da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Além disto, um Seminário de Moda está sendo organizado pelo MinC para o mês de julho, dando continuidade às discussões, com representantes do Brasil todo, dos profissionais dos diferentes elos da cadeia produtiva: o criativo, o acadêmico, o produtivo, o institucional.


Como o produtor cultural pode se inserir neste contexto?


Atualmente, as ações culturais no segmento de moda concentram-se muito em eventos (como desfiles), ou produtos (como sites jornalísticos, revistas e tevê) que, no final das contas, só reforçam o marketing do negócio. Pouco é feito em relação à moda com um olhar realmente cultural: em relação à memória (exposições em museus, desenvolvimento de acervos), ou na área editorial (publicações específicas, mapeamentos nacionais, pesquisas), ou eventos (seminários ou feiras culturais). É fácil imaginar uma infinidade de novos produtos que podem e precisam ser criados.
 
Os números são animadores. Segundo o site do Minc, em declaração recente de Gustavo Vidigal (secretário-executivo adjunto) “este ano, há R$ 900 milhões disponíveis para dez fundos setoriais”. Ele complementa: “Não seria importante talvez criar um fundo setorial para a moda?”. É, sem dúvida, uma ótima idéia!

O momento traz grandes oportunidades para todos os setores criativos do design, especialmente para a moda. Com isto, quem sai ganhando é o mercado: seja na continuidade de ações, dos projetos e eventos que já existem, seja no surgimento de novos produtos culturais.

O fato é que a moda quer estar onde conseguiu chegar: é uma indústria muito importante, inclusive para fazer dessa nossa Pátria Mãe, mais gentil.



Fernando Molinari
- Diretor Executivo do Instituto Brasileiro de Cultura, Moda e Design/Inbracultmode (cuja missão é fomentar ações para os novos talentos); pós-graduando em MBA de Gestão Cultura na UCAN; criador e responsável pelos projetos Babilônia Feira Hype, Prêmio Rio Moda Hype e pelo projeto Roda da Moda/Roda de Docs de vídeos para internet.

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