O tiro no pé começa a sair pela culatra
Escrita em 26/004/10 por DalmoMedeiros
Artigos e Colunas
……a música nunca vai morrer…

Marcos Jucá  



Esta frase de Marcos Jucá nos indica que o ato de fazer música – criar sequências de sons que produzam emoções – sempre existiu e sempre existirá. Partindo desta premissa, a estrutura de mídia que apoiava o comércio de música ao longo do tempo foi acompanhando a evolução tecnológica da época.

Nos anos 40, por exemplo, as marchinhas carnavalescas tinham como aliados para sua divulgação os Irmãos Vitale, com suas edições pré-carnavalescas que serviam de catálogos de partituras para os músicos que as executavam nos bailes tradicionais da cidade. É certo que estes catálogos, comprados nas boas casas do ramo musical da Rua da Carioca, eram o que havia em matéria de divulgação musical e era onde os autores ganhavam algum dinheiro nas edições vendidas anualmente.

Com a evolução do direito autoral, as editoras que produziam esses álbuns (bem antes da Lei 9610 /98, que regulamentou as regras de preservação da propriedade intelectual) vislumbraram a possibilidade de ganhar dinheiro com as edições musicais, criando mecanismos de preservação do direito autoral, um embrião da atual lei, formatando contratos de edições musicais, onde sua parte no jogo seria garantida também. Assim, formava-se uma engrenagem que garante até hoje 75% de direitos autorais aos autores e 25% para as editoras. Essa engrenagem é azeitada pelo ECAD, Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais, que cuida de arrecadar e distribuir os recursos referentes à execução pública de música no Brasil.

Mas, na verdade, este sistema que perdura há mais de trinta anos, a partir do final dos anos 90 foi seriamente abalado com a pirataria e com os downloads politicamente incorretos nos diversos sites de compartilhamento de música.

Aliada a isso, houve a falta de visão e de poder de reação da indústria fonográfica que se manteve sentada inerte em suas poltronas, vendo a “caravana passar” e seu dinheiro escoar pelo ralo. Ela viu no Napster, um dos primeiros sites de compartilhamento de downloads de música, um vilão e não um aliado em potencial, sem perceber que a nova tecnologia poderia gerar novas estratégias de comercialização, ou novas oportunidades com a readaptação ao novo mercado que surgia naquele momento.

Deu no que deu: números cada vez menores nas vendas, desaparecimento de lojas especializadas em discos, majors reduzindo equipes, enxugando gelo para conter a crise em que mergulhavam. Terceirizaram produtores, estúdios e, hoje, tentam uma “vaguinha” no mercado de produção de shows, bem mais rentável para os artistas que o mercado fonográfico. O disco passou a ser um cartão de visita do artista, que só consegue algum lucro quando arma sua tendinha após o show, vendendo seu próprio disco. Sai mais barato pra ele comprar da gravadora a preços mais em conta e revender, com o direito autoral já pago na fonte.

Agora, os horizontes começam a dar mostras de um sol nascendo. Quando todos acreditavam que a música iria morrer como produto, eis que ressurge das cinzas. Ela vem justamente aliando-se às novas tecnologias existentes no mercado, ferramentas livres pra todos se fartarem à vontade. A música só precisa das ondas “internéticas” para chegar a qualquer lugar do mundo, inclusive sem frete nenhum a ser pago em sua cadeia produtiva.

A mesma indústria tecnológica de som e áudio que deu “um tiro no pé” ao criar equipamentos caseiros de cópias de fitas K7, CDs, DVDs, softwares, e deu início à pirataria em larga escala, agora desvia o “tiro pela culatra”, criando equipamentos altamente sofisticados como o iPHONE, iPOD, iPAD, celulares que fotografam, reproduzem mp3 e vídeos com alta qualidade  de definição de som e imagem, para uma geração que já nasceu ouvindo caixinha de música eletrônica pendurada em seus berços, ao invés de móbiles.

Entre essas ferramentas, encontram-se algumas com vocação para divulgação e marketing e outras para a comercialização e distribuição de música. Com isso, a partir de uma forte socialização - ou democratização - dos meios de produção de música, vêm surgindo grandes novidades e novos lançamentos. Chegam impondo mudanças na forma de arrecadação e distribuição e no pagamento de direitos autorais, obrigando à mudança da Lei autoral, que agora terá que ser reformulada para não perder mercado e não prejudicar autores. Até o ECAD, para conseguir arrecadar e fiscalizar, terá que se atualizar e criar estratégias para lidar com a internet.

Outra coisa boa neste momento é que as emissoras de rádio e TV não dominam mais este mercado. As novas tecnologias tiraram o poder da mídia convencional e o colocaram “no colo” dos novos empreendedores culturais e suas ferramentas digitais. O reflexo dessas mudanças são os jovens que deixam de ouvir rádio se a programação musical não corresponder ao seu gosto pessoal. Eles usam o poder de “baixar” músicas legalizadas e formatar seus próprios CDs. Com isso, acabou a tirania da mídia.

O ex-ministro Gilberto Gil, a exemplo do que já acontece em outras partes do mundo, permitiu a gravação de som e imagem de seu último trabalho e defendeu o Creative Commons. Trata-se de uma espécie de editora atípica digital, onde as obras são licenciadas a gosto de quem compra e vende música com: licenciamentos limitados e tabelas de preço, ou sem pagamento de direitos autorais para fins específicos.

O grupo Radiohead liberou em seu site o disco inteiro gravado e propôs que cada cliente pagasse o preço que lhe conviesse. Eles tiveram um sucesso estrondoso, pois este insólito ato se transformou numa grande estratégia de marketing que fez o disco pular para os primeiros lugares da parada de sucessos, além do aumento das vendas e downloads legalizados.

Ao mesmo tempo, a ABPD, Associação Brasileira de Produtores de Discos, acaba de divulgar os números de 2009 que demonstram um aumento expressivo das vendas de música digital (na ordem de 159,4%) com faturamento em torno de R$ 41,7 milhões, 58% deste total de receitas advindas da internet e 41,3% de música via telefonia móvel. Isso indica que a música digital legalizada está crescendo ano após ano, o que ninguém acreditava que viria a acontecer. Junta-se a esse movimento a capacidade ilimitada de armazenamento e a qualidade sonora dos equipamentos eletrônicos lançados a toda hora.

Novamente, atribuo esses números aos hábitos adquiridos por esta geração, que cresceu baixando música em mp3, transferindo arquivos em computadores, conversando no Twitter ou no Facebook, entrando no MySpace ou no site de algum artista de sucesso, tendo o mouse como extensão de seu braço. Ela, que se apoderava dessas criações como “pirata”, atualmente paga por isso. A comunicação dela é digital, veloz, sem bits na língua, por Bluetooth, ou por telepatia. Na verdade, criou-se uma cultura de ouvir música de qualidade em qualquer lugar - nos celulares, ringtones, na rua, no trânsito, entre um tempo e outro de uma partida de futebol.

Essa geração cada vez mais sintetizada une imagem e som, permitindo que seja ressuscitada a indústria de entretenimento musical. Esse processo estende-se para uma nova vida dos produtores musicais, home studios, autores e seus direitos autorais, além do surgimento de novos artistas cada vez mais miscigenados musicalmente falando, assim como são nossas realidades. Tanto a real, quanto a virtual. .



Dalmo Medeiros
- Sócio-Diretor da AcoRHde Consultoria, Produtor Musical, autor exclusivo da Universal Music, cantor do  grupo vocal MPB4, professor do curso de extensão Produção Musical, Faculdade Helio Alonso - FACHA.

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