Cultura gera renda
Escrita em 17/001/10 por admin
Economia da CulturaO filme Chico Xavier teve um orçamento de R$ 12 milhões. Parece muito para um produto que tem a duração de 125 minutos. Mas quando se sabe quantos profissionais trabalharam na produção, essa avaliação muda. Só contratados diretamente pela produção, foram cerca de 300 profissionais, que se dedicaram ao filme por oito meses. Eletricistas, pintores, costureiras e motoristas estão entre os que atuaram nos bastidores e, assim como os artistas, movimentaram a economia da cultura. Há também os que trabalham para as empresas terceirizadas, como estúdios especializados, e os responsáveis pelas 90 locações.

O dinheiro captado para a produção cultural não para por aí. Se um canhão de luz, por exemplo, é usado numa filmagem, isso significa que a empresa que vendeu, ou alugou o equipamento teve sua receita movimentada com a produção do filme. Seguindo esta lógica, até a indústria metalúrgica foi beneficiada com o cinema.

Para analisar o quanto a cultura está presente na economia, o pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho coordena, desde 1999, o Núcleo de Estudos da Economia da Cultura na Incubadora Gênesis de Empresas Culturais da PUC-Rio.
“A economia da cultura do Rio de Janeiro é o sexto fator gerador de impostos estaduais, Imposto de Circulação de Mercadorias (ICMS), contribuindo com 3,8% para a formação do PIB”, garante Prestes, indicando um dos resultados identificados em seus estudos que correspondeu a cerca de R$ 13 bilhões em 2007.  Essa constatação exigiu uma busca nas estatísticas de diversas fontes, como os ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “A cultura existe, mas seus dados estão muito dispersos”, diz Prestes, que também é vice-presidente da Associação Brasileira de Gestão Cultural.

Quando publicou o estudo Economia da Cultura – a força da indústria cultural do Rio de Janeiro, em 2002, Prestes se deparou com dados que provam como a cultura é capaz de gerar emprego e renda. Na revista Cultura em números – outro desdobramento de sua pesquisa – é possível conhecer alguns resultados positivos fora do país que podem inspirar governantes e produtores. Na economia americana, por exemplo, o setor de cultura gerava, somente em atividades culturais não lucrativas, 1,3 milhão de postos de trabalho em 2000. Certamente isso repercute dentro e fora do país: a cultura dos EUA é o seu segundo fator de exportação, perdendo apenas para a indústria bélica.

No Brasil, não temos claramente a informação do quanto a cultura está presente na exportação. Segundo o economista George Vidor, a dificuldade de contabilizar essa receita não é uma exclusividade da cultura. “Isso se refere a serviços em geral. A exportação da cultura envolve todo um processo de produção anterior que é também difícil de ser mensurado, pois tal processo é focado inicialmente no atendimento do mercado externo, com um filme, uma novela, um livro, um show musical, entre outros. Como a exportação, nesse caso, é uma espécie de plus, não se sabe exatamente o quanto ela contribuiu para viabilizar a produção cultural”.

O impacto da cultura na economia já começa a estimular outros estudos. No ano passado, o Ministério da Cultura lançou o catálogo Cultura em números – homônima da revista citada anteriormente – com estatísticas sobre a demanda e a oferta cultura, financiamentos e indicadores. Além de traçar um panorama sobre a cultura do país, a publicação pode ser uma ferramenta de trabalho para os produtores culturais que querem conhecer mais o seu público.

Outro trabalho dedicado ao tema é o do economista Mauro Osório. Ele analisa o levantamento feito pelo Ministério do Trabalho sobre empregos formais no estado do Rio e compara com outras unidades da federação, regiões metropolitanas e capitais. George Vidor conhece o estudo de Osório e conclui: “No caso do Rio, fica bem clara a importância desse setor, mesmo que os dados estejam embolados com o entretenimento em geral”.

Seja pelo aspecto do trabalho, da renda ou do desenvolvimento, todas as análises ligadas ao tema buscam chamar a atenção para o potencial cultural do Brasil, não só para a produção, mas também para o consumo. Segundo Prestes, esses estudos contribuem para a venda de produtos culturais: “Temos que colocar a economia da cultura no radar fazendário”.

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